Pé na África, 25/06/08:
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Campos de refugiados segregados
NAKURU (QUÊNIA) – Já faz seis meses que uma eleição presidencial fraudada no Quênia expôs ao mundo mais uma vez o horror dos conflitos étnicos.
Desde então, os caciques dos principais grupos tribais (kikuyu, luo e kalenjin) que formam a sociedade queniana se acertaram, repartiram o bolo do Estado, criaram uma penca de ministérios para acomodar seus apaniguados e estão aproveitando a vida, num governo de união nacional.
Mas basta passar algumas horas em um lugar como Nakuru, a 200 km da capital, Nairobi, para ver como esses acertos entre bacanas ignoram o que acontece na vida real. Nakuru, porta de entrada para um parque nacional famoso por seus milhares de flamingos cor-de-rosa, é uma cidade encravada no Rift Valley, oeste queniano, palco dos principais distúrbios étnicos em janeiro e fevereiro.
Ainda hoje, depois do Holocausto e do genocídio de Ruanda, o rótulo tribal ainda é o fator determinante por aqui. Pior é constatar que mesmo entre os que mais sofreram com a violência este sentimento prevalece.
Nakuru tem dois campos de refugiados, abrigando pessoas que perderam tudo na onda de violência. Ficam nos dois extremos da cidade. Numa ponta, num estádio de futebol, estão alojadas 1.400 pessoas pertencentes às etnias luo e kalenjin, que se uniram taticamente durante os conflitos.
A cerca de 4 km de distância, do outro lado da linha de trem que corta a cidade, um gigantesco campo abriga 12.000 pertencentes ao grupo dos kikuyu, num estacionamento público.
“Se misturássemos os dois campos, seria o inferno”, me explica Ewan, de 22 anos, um voluntário da Cruz Vermelha queniana.
Ontem à tarde, primeiro fui visitar o estádio de futebol que serve de casa para os luo e os kalenjin. Fui extremamente bem-recebido, por pessoas ávidas por desabafar. Ali, duas ou três famílias dividem tendas de não mais de 10 metros quadrados, em formato de iglu e feitas de lona. O chão é de terra, e não há colchões para todos dormirem.
A grama já está semi-destruída, as arquibancadas de madeira apodrecem, e as traves viraram varais improvisados. Era por volta de 14h, e os iglus de lona eram fornos. De noite, no inverno queniano, a temperatura cai abruptamente, e, se chove, a umidade entra. Problemas respiratórios são o maior problema na pequena clínica improvisada no local, mantida pela Cruz Vermelha. Nos últimos meses, duas crianças e quatro adultos morreram.
Este campo pertence aos apoiadores de Raila Odinga, o candidato luo que disputou e perdeu a eleição presidencial, provavelmente por fraude. Foi o anúncio da sua derrota que originou os protestos. Hoje, Odinga é o primeiro-ministro no governo de união nacional.
Seus apoiadores foram perseguidos por kikuyu, e os perseguiram de volta. No Quênia, não houve um grupo matando o outro, como sérvios contra bósnios na antiga Iugoslávia ou hutus contra tutsi em Ruanda. Foi um todos contra todos, que deixou 1.200 mortos e 400 mil refugiados.
(A propósito, eu, por mais que tente, não consigo diferenciar fisicamente as etnias, mas os quenianos juram que é possível _e também pelo sobrenome. Os luo têm nomes começados com “O”, como Odinga e Obama, pai do candidato presidencial norte-americano).
O governo começou a ameaçar fechar à força os campos nas próximas semanas, dizendo que a situação do país está melhor, mas os refugiados não querem. “Vamos resistir”, diz Robert, um pastor evangélico. Os refugiados dizem que querem indenização para recomeçar a vida, além de temerem voltar ao convívio com as outras etnias. Querem viver em áreas segregadas.
Antes dos conflitos, as etnias se misturavam, mas hoje há uma desconfiança mútua. Simon, de 22 anos, conta que tinha vários amigos kikuyu antes da violência. “Não falo mais com eles”, disse ele, que teve a casa saqueada e os pertences todos roubados.
Do lado oposto da cidade, no outro campo de refugiados, as mesmas histórias vêm com sinal invertido. Ali estão apoiadores do presidente Mwai Kibaki, um kikuyu, reeleito na votação suspeita.
“Nós somos perseguidos pelos kalenjin a cada eleição. Nesta última, nos disseram que seria a perseguição final”, diz um senhor com dentes amarelados.
No meio do campo, uma escola improvisada, calorenta e mal-cheirosa, atende às crianças do local. Mas ontem, só vi uma garotada brincando nos bancos de madeira semi-destruídos.
Os problemas são os mesmos enfrentados no campo que abriga as etnias rivais. A base da alimentação é milho, feijão e um composto chamado CSB, distribuído pelo Programa Alimentar Mundial da ONU, que reúne seis cereais. É um pó amarelado rico em nutrientes que as famílias recebem a cada duas semanas. Misturado com água fervente, vira um mingau.
Mas não há frutas ou vegetais na dieta. Pergunto se as pessoas comem carne ou frango e um homem ri. “É o nosso sonho”, diz.
Mesmo assim, muitas famílias preferem ficar. Bem ou mal, ali têm comida, água, assistência médica e abrigo de graça.
“60% das pessoas aqui causariam problemas se o governo fechasse o campo”, diz Abdi, responsável da Cruz Vermelha (e que diz ser torcedor fanático do Santos). “As pessoas estão assustadas e temem por suas vidas”, diz.
Mas o governo promete fechar os campos de refugiados em breve. Vem mais violência por aí.
Escrito por Fábio Zanini