MIGREPI

23 Outubro, 2008

Israel vira terra de exílio dos refugiados da África, 07/09/08

Arquivado em: Israel — migrepi @ 6:42 pm
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Le Monde, 07/09/08:

Israel vira terra de exílio dos refugiados da África

Benjamin Barthe

É uma rua reservada para pedestres, imprensada entre as duas estações rodoviárias de Tel-Aviv. Agências de câmbio, lanchonetes que vendem “shawarma” (sanduíches típicos à base de carne), cabeleireiros especializados nos cortes de tipo “afro”, e lojas de equipamentos de telefonia estão enfileirados numa extensão de 300 metros de asfalto em mau estado, numa rua coberta por embalagens gordurosas jogadas ali pelos usuários. Nesta área, não há nenhum surfista estilizado, e tampouco qualquer jovem executivo apressado. Invadido pela cacofonia das buzinas e pelos gases de escapamento dos microônibus, o bairro de Neve Sha’anan há muito foi desertado pela fauna antenada de Tel-Aviv. Aqui, vivem aqueles que foram deixados para trás pelo crescimento econômico israelense, os marginais de toda laia. E, num movimento que vem ocorrendo há um ano, também moram aqui milhares de refugiados, oriundos em sua maioria do Sudão e da Eritréia, os quais conferem a este lugar uma aura improvável de “Little Africa” (Pequena África).

Ismail Ahmed é um desses imigrantes recém-chegados. Este pai de família bonachão que aparenta ter 40 anos é um sobrevivente dos massacres do Darfur. Ele abriu no início de abril um pequeno cibercafé. Nele, as crianças sudanesas costumam reunir-se para intermináveis partidas de videogames on-line. À noite, Ismail dá aulas de inglês e de informática para os seus pais. À medida que ele vai sendo bem-sucedido, Ismail se prepara para renovar seu parque de computadores. Na vitrine do café, ele dependurou uma grinalda de bandeiras cunhadas com a estrela de Davi. Ele assim fez para expressar o seu profundo reconhecimento pelo seu país de adoção. As bandeirinhas são as testemunhas do percurso inesperado que ele efetuou no espaço de um ano.

Foi no dia 1º de julho de 2007 que Ismail pisou pela primeira vez o solo de Israel, junto com a sua mulher Halima e seus quatro filhos. “Faltavam quinze para as 11h da manhã, precisamente”, diz. Após uma caminhada extenuante de sete horas pelo deserto do Sinai, a família havia conseguido enganar a vigilância das tropas egípcias e encontrar um caminho para transpor a cerca de arame-farpado que marca a fronteira com o Estado judaico. “Nós empreendemos a viagem a partir do Cairo, amontoados na traseira da picape do nosso passador beduíno; todos nós tínhamos um cobertor sobre a cabeça”, conta Ismail. Após terem descansado durante 24 horas num acampamento a pouca distância da fronteira, e após terem enfrentado uma derradeira caminhada por uma trilha de cascalho, os refugiados avistam finalmente o alvo que tanto almejavam.

“Havia um barranco de cerca de 60 metros de comprimento, completamente a descoberto”, prossegue. “Nós deixamos para trás todos os nossos apetrechos, até mesmo as garrafas de água. O guia nos disse que caso ouvíssemos disparos de armas, era preciso mesmo assim continuar correndo. Nós fizemos uma breve oração, eu peguei uma das crianças, coloquei-a sobre as minhas costas, segurei outra pela mão, e começamos a correr em disparada. Cinco minutos mais tarde, estávamos num caminho de areia, do outro lado da fronteira. Deliberadamente, nós fizemos questão de deixar as marcas dos nossos passos. Uma hora mais tarde, um jipe do exército israelense apareceu e os soldados nos deram carona. Estávamos a salvo”.

Da mesma forma que Ismail e sua família, milhares de africanos se infiltraram em Israel nestes últimos meses. A antena do Alto-Comissariado para os refugiados em Tel-Aviv recenseou cerca de 4.000 eritreus e 3.500 sudaneses. Até então, a maioria dentre eles vivia no Cairo. Quase todos são opositores do regime de Asmara, que impõe com mão de ferro na Eritréia um socialismo autoritário à cubana; ou ainda, sobreviventes do sul do Sudão ou do Darfur, onde os janjawids, milicianos a cavalo a serviço da ditadura de Cartum, espalham o terror. As reportagens que o fotógrafo e jornalista Yonathan Weitzman realizou de agosto de 2006 a agosto de 2008 documentam a chegada caótica desses imigrantes a Israel, desde a perigosa passagem da fronteira até o momento em que eles são acolhidos pelas autoridades. Estas, por sua vez, não sabiam ao certo se elas deviam decretar sua detenção, sua recondução até a fronteira, ou fornecer-lhes uma autorização para residência temporária.

As soluções que elas estudaram para o problema foram mudando à medida que o afluxo de refugiados foi se tornando mais amplo. Na origem do fenômeno estava a repressão sangrenta de uma manifestação, pela polícia egípcia, no Cairo, em dezembro de 2005, que havia provocado a morte de 27 pessoas. De um dia para o outro, centenas de famílias tomaram a decisão de fugirem para Israel. Considerados como os súditos de um “país inimigo”, os refugiados sudaneses foram inicialmente encarcerados.

Contudo, diante da população excessiva nas prisões, e frente à pressão da opinião pública, comovida pelos relatos de “genocídio” no Darfur, as autoridades locais foram obrigadas a libertar uma parte dos refugiados. Os felizes eleitos se aproveitaram então da situação para conseguirem emprego nos kibutz ou nos hotéis de Eilat, uma cidade de veraneio no mar Vermelho. Essa “sorte grande” acaba chegando aos ouvidos daqueles que haviam permanecido no Cairo que, por sua vez, empreendem a mesma viagem pelas trilhas do deserto do Sinai. Na esteira do movimento, congoleses, marfinenses e ganenses que procuram fugir da miséria do seu país, também resolvem arriscar sua sorte.

No verão de 2007, quando percebem que perderam todo controle sobre aquilo que um dos seus dirigentes qualifica de “tsunami humano”, as autoridades de Israel resolveram tomar medidas mais drásticas. Uma construção anexa para a prisão de Ketziot, no meio do deserto do Neguev, foi construída às pressas. No mês de agosto, violando a Convenção das Nações Unidas sobre os refugiados da qual ele é signatário, o Estado judeu enviou de volta para o Egito, 48 refugiados que estavam pedindo asilo, em sua maioria foragidos do Darfur. A medida desencadeou na opinião uma indignação tão grande que ela incitou o governo a emitir um mês mais tarde autorizações para residência temporária, para 600 refugiados sudaneses.

Paralelamente, o primeiro-ministro Ehoud Olmert intimou o seu vizinho egípcio a não deixar passar mais ninguém pela sua fronteira. A mensagem foi bem recebida. Daqui para frente, as tropas que ocupam posições no Sinai passam a atirar em todo e qualquer indivíduo que tentar passar a fronteira. As autoridades do Cairo falam em 16 mortos desde o começo do ano, mas, segundo afirma Sigal Rozen, do Fórum para os direitos dos refugiados, “o número é de fato muito mais importante. Há cadáveres ao longo da fronteira que ninguém se habilita a recolher”. Atualmente, o ritmo das chegadas diminuiu

Da mesma forma que Ismail, os sudaneses de Israel se esforçam para construírem uma nova vida. Mas esta empreitada tem sido dificultada pelas hesitações do governo em relação à questão. “Ninguém aqui consegue compreender o que Israel pretende fazer ao certo”, diz Mohyeddin Abdallah, o patrão de um pequeno café de Neve Sha’anan, que também é utilizado como hotel improvisado pelos sudaneses sem domicílio. “Até hoje, nenhuma decisão foi tomada a respeito do nosso estatuto”. A esse respeito, o mais recente sinal que foi transmitido pelo governo não é nem um pouco tranqüilizador. O seu projeto de lei sobre “a prevenção das infiltrações” foi aprovado em primeira leitura pelos deputados da Knesset. Ele pune por meio da deportação ou com uma pena de cinco a sete anos de prisão toda pessoa que entrar ilegalmente em Israel. Daqui para frente, os que se habilitam a atravessar o deserto do Sinai sabem o que espera por eles.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Retirada da Cisjordânia: colonos israelenses querem compensação para partir, 10/09/08

Arquivado em: Israel, Palestina — migrepi @ 6:36 pm

Blog Controvérsia, 10/09/08:

http://blog.controversia.com.br/2008/09/10/retirada-da-cisjordania-colonos-israelenses-querem-compensacao-para-partir/

Retirada da Cisjordânia: colonos israelenses querem compensação para partir

Muitos colonos israelenses deixariam alegremente suas casas na Cisjordânia, desde que recebam uma compensação financeira. O grupo Bait Echad tem pressionado por uma retirada planejada para evitar a repetição das cenas caóticas na Faixa de Gaza

Christoph Schult

Quando Benny Raz chega à noite em casa e desce do seu carro, seus vizinhos dão as costas para ele e desaparecem em suas casas. Raz está vestindo uma jaqueta preta curta e jeans. Sua cabeça parece uma escultura modelada de forma grosseira, com suas maçãs do rosto pronunciadas e olhos situados profundamente em suas órbitas. Ele tem 55 anos e diz: “Eu perdi todos meus amigos aqui”.

Raz, um israelense, se senta em um velho sofá em sua sala de estar e acende um Imperial, a marca favorita de cigarro dos palestinos. Sua esposa entra na sala e serve Nescafé com biscoitos. Ela diz: “Só para deixar uma coisa clara, Benni: você não fala por mim”. Ele é um estranho até mesmo em sua própria casa.

O lugar que ele chama de lar é a cidade de Karnei Shomron, um assentamento judeu com uma população de 6.400 pessoas no meio da Cisjordânia palestina, a região que Israel capturou na Guerra dos Seis Dias em 1967. Um total de 275 mil israelenses vive em mais de 120 assentamentos na Cisjordânia, sem contar Jerusalém Oriental.

Quando Raz se mudou para Karnei Shomron com sua família em meados dos anos 90, ele apoiava o radical Partido Moledet de direita de Israel, que deseja que os palestinos na Cisjordânia sejam assentados em países árabes.

Mas a certa altura Raz se viu tomado por dúvidas. Ele viu como as mulheres palestinas, com seus bebês, eram forçadas a esperar por horas nos postos de controle militares, e como o exército israelense detinha palestinos doentes por longos períodos. Ao longo dos anos, Raz chegou ao que pode parecer um entendimento quase banal, mas um que é impressionante para um nacionalista israelense de direita: “Nós não podemos governar outro povo”.

Raz não é ativista da paz, e é tudo menos ingênuo, assim como não precisa de qualquer lição de patriotismo. Ele já serviu em uma unidade de combate do exército israelense, trabalhou no Líbano como agente da agência de inteligência israelense, o Mossad, e foi um marechal-do-ar de uma companhia aérea nacional israelense, a El Al. Em 1975, ele estava no avião que foi atacado com bazucas por terroristas no Aeroporto de Orly, em Paris. Mais de 100 israelenses foram salvos, em parte devido à sua intervenção corajosa.

Evitando uma repetição de Gaza

Agora, mais de 30 anos depois, Raz tem a sensação, novamente, de ter de proteger seus patrícios israelenses de algum mal. Mas desta vez são 80 mil em risco, que é o número de colonos vivendo ao leste do muro de segurança na Cisjordânia. O ex-primeiro-ministro Ariel Sharon justificou a construção do muro em 2003 alegando que visava proteger Israel de ataques palestinos. Mas ele também expandiu o território israelense. Ao fazê-lo, Sharon colocou a maioria dos colonos judeus sob controle israelense. Todavia, o muro deixou 77 assentamentos do outro lado – no lado palestino.

Quando Raz viu quão caótico foi processo de evacuação forçada dos assentamentos na Faixa de Gaza e quão profundamente ele dividiu seu país, ele decidiu se envolver. Por estar convencido de que Israel algum dia removerá a maioria dos assentamentos na Cisjordânia, ele contatou parlamentares do Partido Likud de direita e propôs uma nova lei, sob a qual o Estado compensaria os colonos dispostos a deixarem suas casas voluntariamente, para que assim possam construir novas casas em território israelense. O argumento por trás de sua proposta era de que assim que a retirada estiver oficialmente marcada, os colonos seriam forçados a vender suas velhas casas por valor bem abaixo do de mercado, se conseguissem vender.

Os políticos de direita não se interessaram pela idéia de Raz. Do ponto de vista deles, uma evacuação voluntária seria um sinal de fraqueza. Mas Raz conseguiu encontrar aliados na esquerda. Juntamente com parlamentares do Partido Merez e do Partido Trabalhista de esquerda, ele fundou o movimento Bait Echad, ou “Uma Casa”. Ele tem tido um sucesso inesperado.

Importantes políticos dentro da coalizão de governo israelense passaram a apoiar a iniciativa legislativa de Raz. O ministro da Defesa, Ehud Barak, agora a apóia, assim como a ministra das Relações Exteriores, Tzipi Livni, atualmente a principal candidata a suceder o primeiro-ministro Ehud Olmert. O princípio da retirada em troca de compensação também faz parte do plano de paz que Olmert propôs aos palestinos.

O vice-primeiro-ministro Haim Ramon acredita que, ao aprovar a legislação, o governo poderá provar aos palestinos e à comunidade internacional que fala sério a respeito da solução de dois Estados. Ao mesmo tempo, diz Ramon, isso fortaleceria a reivindicação de Israel de manter seus assentamentos a oeste do muro.

Nessas áreas, Jerusalém ainda aprova a construção de novas casas e prédios de apartamentos, uma política que é desaprovada até mesmo pelo governo americano pró-israelense. Como o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, assegurou ao presidente palestino, Mahmoud Abbas, um Estado palestino não deve se parecer com um “queijo suíço”.

Mas mesmo se o processo de paz com os palestinos fracassar, a maioria dos israelenses é contrária a uma permanência nas áreas palestinas. O Partido Kadima de Olmert já anunciou que Israel planeja a retirada da maioria dos assentamentos na Cisjordânia – se não após as negociações com os palestinos, então unilateralmente, seguindo o modelo da retirada da Faixa de Gaza em 2005.

Moti Morel, um profissional de relações públicas, está encarregado de divulgar o Bait Echad. Ele já aconselhou vários políticos, incluindo o líder do Partido Likud, Benjamin Netanyahu. “Diferente de Gaza, onde os colonos foram evacuados no último minuto, nós estamos planejando antecipadamente a retirada da Cisjordânia”, diz Morel. Ele diz que 5 mil colonos já se registraram no programa Bait Echad. A meta da organização, segundo Morel, é registrar o máximo de pessoas para que os políticos sejam forçados a aceitar a lei.

Morel não é escrupuloso quando se trata de escolher seus métodos. Em uma campanha, ele imprimiu cartões verdes dobrados, semelhantes a passaportes, com o selo da Autoridade Autônoma Palestina e os enviou a todos os colonos a leste do muro da fronteira. A mensagem era clara: cedo ou tarde, seus assentamentos serão evacuados. Se permanecerem, vocês se tornarão cidadãos do Estado da Palestina.

As chances de sucesso do plano são boas, diz Morel. Muitos dos judeus que vivem na Cisjordânia não são fanáticos religiosos que acreditam que é a vontade de Deus que se estabeleçam na Erez Israel (Terra de Israel) bíblica. Segundo uma pesquisa encomendada por Morel, 53% dos colonos não se mudaram para a Cisjordânia por motivos ideológicos, mas porque os terrenos eram mais baratos do que em Tel Aviv, por exemplo. O problema, diz Benni Raz, é que os colonos religiosos estão pressionando a todos. Os líderes dos colonos alegam que os renegados quase não têm apoio. Mas na verdade eles vêem o Bait Echad como uma grave ameaça, diz Zwi Kazower, o presidente do conselho comunitário de Kiryat Arba, perto de Hebron: “Se a lei for aprovada, mais do que alguns poucos colonos deixarão este lugar”.

‘Quão rapidamente posso sair daqui?’

É pouco antes das 21 horas da noite de domingo. Benny Raz fez uma viagem ao assentamento vizinho de Nofim, lar de pouco mais de 100 famílias. Na casa da família Friedman, ele conhece Avshalom Vilan, um membro do Parlamento israelense, o Knesset, que faz parte do Partido Merez de esquerda. Juntamente com o anfitrião Kobi Friedman, um empresário local, eles organizaram uma reunião para fornecer informações sobre o Bait Echad. O telefone toca assim que estão prestes a sair para o centro comunitário. Um amigo do outro lado da linha os aconselha a cancelarem o evento, alertando que pessoas planejam perturbar a reunião.

Os Friedman decidem realizar a reunião em sua casa. Algumas poucas pessoas têm coragem de vir, com uma dúzia presente no final. Vilan, o membro do Knesset, explica a lei de compensação. Ele diz: “Ou chegamos a um acordo com os palestinos, sendo que nesse caso vocês terão que partir. Ou ocorrerá uma terceira intifada, e então vocês serão os primeiros alvos”. Friedman, o anfitrião, acrescenta: “Nós nos mudamos para cá porque era o que o governo israelense queria. Agora as condições mudaram, então o governo tem de nos ajudar a partir de novo”.

Um jovem com cabeça raspada diz: “Eu não me mudei para cá por motivos ideológicos. Eu só estou interessado em uma coisa: Quão rapidamente posso sair daqui se a proposta se tornar lei?” Outro homem concorda, acrescentando: “Desde a construção do muro, viver aqui é como viver no gueto”.

No final da reunião, um homem com barba branca diz: “Nós somos colonos para defender Israel. Veja o que está acontecendo em Gaza. Nós partimos e agora eles estão disparando foguetes contra nós. Nós não podemos dar terras aos árabes”.

Esta posição sem concessão e fútil é uma forma de ver as coisas e era como Raz costumava se sentir. Sua campanha é uma tentativa de encontrar uma saída.

“Der Spiegel”

12 Setembro, 2008

60 anos de Estado de Israel: os árabes israelenses ainda se sentem indesejados, 05/08/08

Arquivado em: Israel — migrepi @ 5:15 pm
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Blog Controvérsia, 05/09/08:

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60 anos de Estado de Israel: os árabes israelenses ainda se sentem indesejados

Ethan Bronner

Quando o Estado de Israel comemorar o seu 60° aniversário nas próximas semanas, com muita alegria devido ao renascimento nacional judaico e aos valores democráticos, os árabes, que são 20% do total de cidadãos do país, não estarão celebrando. Em melhor situação, mais bem integrados e mais livres do que a vasta maioria dos outros árabes, os 1,3 milhão de árabes de cidadania israelense ainda estão em uma situação bem pior do que a dos judeus israelenses e sentem-se cada vez mais indesejados.

Na próxima quinta-feira, que é o Dia da Independência, milhares de árabes irão se concentrar nas aldeias em que antigamente moravam para protestar contra aquilo que chamam de “nakba”, ou catástrofe, termo que usam para referirem-se à criação de Israel. Para a maioria dos israelenses a identidade judaica é uma questão fundamental para a nação, a razão pela qual eles se orgulham de viver aqui e o vínculo com a História. Mas os árabes israelenses, incluindo aqueles que se integraram com mais sucesso, afirmam que uma nova identidade precisa ser encontrada para garantir a sobrevivência do país no longo prazo.

“Eu não sou judeu”, protesta Eman Kassem-Sliman, um radiojornalista árabe que fala um hebraico impecável, e cujos filhos estudam em uma escola predominantemente judaica em Jerusalém. “Como posso pertencer a um Estado judeu? Se eles definirem isto como um Estado judeu, estarão negando a minha presença aqui”.

O choque entre a estimada herança cultural da maioria e as esperanças da minoria é mais do que um atrito. E hoje em dia, até mais do que durante as grandes comemorações de meio século de criação do Estado judeu, uma década atrás, a esquerda e a direita enxergam cada vez mais os árabes israelenses como um dos desafios centrais para o futuro de Israel – um obstáculo intransponível para um acordo amplo entre judeus e árabes. O que os judeus mais temem é perder a batalha demográfica para os árabes, tanto dentro de Israel como no maior território controlado pela nação.

Muitos dizem que da mesma forma que um fim da identidade judaica do país significaria um fim do Estado, um fracasso da tarefa de instilar nos cidadãos árabes uma sensação de que pertencem a Israel seria perigoso, já que os árabes promovem a idéia de que, com 60 anos ou não, Israel é um fenômeno passageiro.

“Quero convencer o povo judeu de que ter um Estado judeu é algo de ruim para eles”, afirma Abir Kopty, que defende os direitos dos árabes israelenses.

A questão da terra é especialmente delicada. Por todo o Estado de Israel, e especialmente no norte, há ruínas de dezenas de vilas palestinas desabitadas, cicatrizes na paisagem resultantes do conflito que deu a luz ao país em 1948.

Mas alguns habitantes originais e os seus descendentes, todos árabes israelenses, moram em vilas e aldeias super populosas, muitas vezes perto das suas antigas aldeias, e estão proibidos de reocupá-las enquanto as comunidades judaicas em torno deles são estimuladas a se expandir.

Em uma tarde morna recente, Jamal Abdulhadi Mahameed dirigiu por uma estrada de terra que corta campos de trigo e melancias em um kibbutz, ladeada de pinheiros e cactus. Ele galgou as ruínas de uma escada e declarou ao vento: “Esta é a minha casa. Foi aqui que eu nasci”.

Ele diz que o que mais deseja hoje em dia, aos 69 anos de idade, é sair da cidade lotada ao lado, voltar ao seu terreno abandonado, no qual restaram romãzeiras plantadas pelo seu pai, e cultivar a terra, conforme fizeram várias gerações que viveram antes dele. Ele foi à justiça para reaver a terra.

Mahameed não é nenhum revolucionário e, sob quase todos os aspectos, é um cidadão pacato e bem-sucedido. Uma das suas filhas é médica. Dois filhos são advogados e um é engenheiro. Mas, por ser árabe, o seu pedido para retornar à sua terra vai de encontro a uma antiga política israelense.

“Estamos proibidos de usar a nossa própria terra”, queixa-se Mahameed, de pé naquela que já foi a vila de Lajoun, e que hoje é uma mistura de mato e pinheiros rodeada pelos campos do kibbutz Megiddo. “Eles querem manter a minha terra disponível para os judeus. A minha filha não faz distinção entre pacientes judeus e árabes. Por que o Estado me trata de forma diferente?”

A resposta tem a ver com a própria essência do sionismo – o movimento para o renascimento judaico e o controle da terra na qual um Estado judeu prosperou pela primeira vez há mais de 2.000 anos.

“Terra é presença”, opina Clinton Bailey, um acadêmico israelense que pesquisa a cultura beduína. “Se quisermos estar presentes aqui, precisamos ter terra. O país não é tão grande assim. Aquilo que é cedido aos árabes não pode mais ser usado para acomodar os judeus que ainda podem querer vir para cá”.

Um Estado palestino é visto por muita gente como uma potencial solução para as tensões com os palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, mas qualquer conflito profundo com os próprios cidadãos árabes de Israel poderá ser algo muito mais complexo.

O antagonismo existe dos dois lados. Muitos árabes israelenses expressam solidariedade aos palestinos que vivem sob a ocupação, enquanto outros elogiam o Hezbollah, o grupo anti-Israel no Líbano. E alguns parlamentares árabes acusam freqüentemente Israel de praticar nazismo.

Por outro lado, vários rabinos de direita emitiram ordens proibindo os judeus de alugarem apartamentos a árabes ou de empregá-los. E, segundo as pesquisas, a maioria dos judeus é favorável à proposta da retirada dos árabes de Israel como parte de uma solução baseada em dois Estados, uma idéia que era considerada muito radical uma década atrás.

Os árabes daqui rejeitam a idéia, em parte porque preferem a certeza de uma democracia israelense imperfeita do que se sabe lá que sistema possa ser criado em um frágil Estado palestino. Isto é parte do paradoxo dos árabes israelenses. A fúria deles aumentou, mas também a sensação de que pertencem ao país.

Na verdade, a retórica ansiosa e recriminatória de ambos os lados transmite uma falsa impressão de que há uma tensão constante. Em muitos lugares existe um nível real de coexistência árabe-judaica, e recentemente o governo comprometeu-se com ações afirmativas para os árabes nos setores de educação, infra-estrutura e empregos públicos.

“Sabemos que eles necessitam de mais terra, que os filhos deles precisam de um lugar para morar”, diz Raanan Dinur, diretor-geral do gabinete do primeiro-ministro. “Estamos trabalhando no sentido de construir uma nova cidade árabe no norte. O nosso principal objetivo é pegar aquilo que atualmente são duas economias e integrá-las em uma economia única”.

Porém, há o temor de que o tempo seja curto.

Mahameed e os seus amigos da vila chegarão ao supremo tribunal do país em julho com o objetivo de recuperar 20 hectares da terra que pertencia às suas famílias e que atualmente não é cultivada, a não ser pelos pinheiros plantados pelo Fundo Nacional Judeu.

A história deles é parte de uma história maior: depois que a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) votou no final de 1947 a favor da criação de dois Estados na Palestina, um árabe e um judeu, milícias árabes locais e os seus apoiadores regionais atacaram os assentamentos judaicos, furiosos com o apoio da ONU a um Estado judeu. As forças sionistas contra-atacaram. Centenas de vilas palestinas, incluindo Lajoun, foram evacuadas e quase completamente destruídas.

Os árabes palestinos tornaram-se refugiados na Jordânia, no Líbano e na Faixa de Gaza, que à época era controlada pelo Egito. Mas alguns, como Mahameed, permaneceram em Israel. Eles receberam cidadania israelense e a promessa de igualdade, mas jamais a obtiveram.

Aqueles que partiram ou que foram expulsos das suas vilas não tiveram permissão para voltar, e, em muitos casos, passaram os últimos 60 anos a alguns quilômetros das suas antigas moradias, vendo as suas terras serem cultivadas por judeus recém-chegados, ou servirem de canteiros de obras para a construção de moradias para esses novos habitantes, muitos deles refugiados da opressão nazista ou do anti-semitismo soviético.

Em 1953, o parlamento israelense declarou que cerca de 121 mil hectares de terras das vilas capturadas passaram a ser propriedade do governo com o objetivo de abrigarem assentamentos ou por questões de segurança.

Mahameed e os outros 200 árabes israelenses que entraram com uma ação na justiça vivem aglomerados na aldeia de Um el-Fahm, perto das suas antigas terras.

“A nossa alegação é que, como a terra não foi usada durante todos esses anos, não havia necessidade de confiscá-la”, diz Suhad Bishara, um advogado do Adalah, um grupo com sede em Haifa dedicado à defesa dos direitos dos árabes israelenses.

O argumento de Bishara foi rejeitado no fórum local, que concordou com a opinião do governo de que os pinheiros e uma estação de tratamento de água em Lajoun caracterizam um assentamento. Para Bishara, a determinação faz parte de uma longa tradição de trapaças dos sistemas legal e político de Israel, que quase sempre impedem o aumento do uso das terras pelos árabes.

Não é difícil perceber a lacuna entre árabes e judeus em quase todas as áreas – saúde, educação e emprego, bem como em investimentos do governo. O número de famílias árabes que vive abaixo da linha da pobreza é três vezes maior do que o de famílias judaicas, e um estudo governamental feito há cinco anos mencionou a necessidade de se remover “a nódoa da discriminação”.

Dinur, do gabinete do primeiro-ministro, interessou-se pela questão e reuniu-se várias vezes com lideranças árabes. Ele diz que pode ser possível que um dia os árabes retornem às suas aldeias nativas, mas isso só aconteceria como parte de um processo maior de integração e reconciliação regional. Caso contrário, diz ele, os judeus israelenses teriam medo de que o objetivo dos árabes fosse recuperar todo o território perdido na guerra de 1948.

Para muitos israelenses, o desafio representado pelos árabes não pode ser separado daquilo que eles vêem como os riscos na região – a influência ascendente do Irã, o crescimento do radicalismo islâmico e o temor de que uma nova guerra no Líbano ou na Faixa de Gaza possa não estar muito distante.

Michael Oren, do Instituto Shalem, um grupo de pesquisas em Jerusalém, diz que quando o exército prepara-se para a guerra, ele inclui nos seus planos a forma de lidar com a possibilidade de os árabes israelenses insurgirem-se contra o Estado.

Muitos também acreditam – e nisto judeus e árabes parecem concordar – que sem uma solução para a questão palestina na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, as tensões internas não diminuirão. E, tendo em vista o pessimismo quanto às negociações de paz com os palestinos, as previsões não são boas.

Para muitos judeus israelenses que há muito resistiam à idéia de um Estado palestino, foi a percepção de que estavam perdendo a batalha demográfica para os palestinos que os fez mudar de opinião. Mas é claro que o desafio populacional também diz respeito aos árabes de Israel.

Os árabes israelenses têm plena consciência desta disputa. E alguns acreditam que o tempo está do lado deles.

“Israel está vivendo dentro do círculo árabe-islâmico”, afirmou em uma entrevista Raed Salah, diretor do Movimento Islâmico de Israel. “É importante enxergar a porcentagem judaica nesse contexto mais amplo no longo prazo”.

Abdulwahab Darawshe, um ex-membro do parlamento israelense e atual presidente do Partido Democrático Árabe, disse recentemente, sentado no seu escritório em Nazaré: “Não importa o que aconteça, não sairemos daqui novamente. Isso foi um grande erro cometido em 1948. Mas a nossa identidade está tornando-se cada vez mais palestina. É impossível nos podar da árvore árabe”.

Ao ser indagado a respeito dos seus planos para o Dia da Independência de Israel, ele afirmou: “Pegarei uma pá e vou trabalhar na terra em volta das minhas oliveiras”.

“The New York Times”

Israel vira terra de exílio dos refugiados da África, 07/09/08

Arquivado em: Israel — migrepi @ 5:05 pm
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Le Monde, 07/09/08:

Israel vira terra de exílio dos refugiados da África

Benjamin Barthe

É uma rua reservada para pedestres, imprensada entre as duas estações rodoviárias de Tel-Aviv. Agências de câmbio, lanchonetes que vendem “shawarma” (sanduíches típicos à base de carne), cabeleireiros especializados nos cortes de tipo “afro”, e lojas de equipamentos de telefonia estão enfileirados numa extensão de 300 metros de asfalto em mau estado, numa rua coberta por embalagens gordurosas jogadas ali pelos usuários. Nesta área, não há nenhum surfista estilizado, e tampouco qualquer jovem executivo apressado. Invadido pela cacofonia das buzinas e pelos gases de escapamento dos microônibus, o bairro de Neve Sha’anan há muito foi desertado pela fauna antenada de Tel-Aviv. Aqui, vivem aqueles que foram deixados para trás pelo crescimento econômico israelense, os marginais de toda laia. E, num movimento que vem ocorrendo há um ano, também moram aqui milhares de refugiados, oriundos em sua maioria do Sudão e da Eritréia, os quais conferem a este lugar uma aura improvável de “Little Africa” (Pequena África).

Ismail Ahmed é um desses imigrantes recém-chegados. Este pai de família bonachão que aparenta ter 40 anos é um sobrevivente dos massacres do Darfur. Ele abriu no início de abril um pequeno cibercafé. Nele, as crianças sudanesas costumam reunir-se para intermináveis partidas de videogames on-line. À noite, Ismail dá aulas de inglês e de informática para os seus pais. À medida que ele vai sendo bem-sucedido, Ismail se prepara para renovar seu parque de computadores. Na vitrine do café, ele dependurou uma grinalda de bandeiras cunhadas com a estrela de Davi. Ele assim fez para expressar o seu profundo reconhecimento pelo seu país de adoção. As bandeirinhas são as testemunhas do percurso inesperado que ele efetuou no espaço de um ano.

Foi no dia 1º de julho de 2007 que Ismail pisou pela primeira vez o solo de Israel, junto com a sua mulher Halima e seus quatro filhos. “Faltavam quinze para as 11h da manhã, precisamente”, diz. Após uma caminhada extenuante de sete horas pelo deserto do Sinai, a família havia conseguido enganar a vigilância das tropas egípcias e encontrar um caminho para transpor a cerca de arame-farpado que marca a fronteira com o Estado judaico. “Nós empreendemos a viagem a partir do Cairo, amontoados na traseira da picape do nosso passador beduíno; todos nós tínhamos um cobertor sobre a cabeça”, conta Ismail. Após terem descansado durante 24 horas num acampamento a pouca distância da fronteira, e após terem enfrentado uma derradeira caminhada por uma trilha de cascalho, os refugiados avistam finalmente o alvo que tanto almejavam.

“Havia um barranco de cerca de 60 metros de comprimento, completamente a descoberto”, prossegue. “Nós deixamos para trás todos os nossos apetrechos, até mesmo as garrafas de água. O guia nos disse que caso ouvíssemos disparos de armas, era preciso mesmo assim continuar correndo. Nós fizemos uma breve oração, eu peguei uma das crianças, coloquei-a sobre as minhas costas, segurei outra pela mão, e começamos a correr em disparada. Cinco minutos mais tarde, estávamos num caminho de areia, do outro lado da fronteira. Deliberadamente, nós fizemos questão de deixar as marcas dos nossos passos. Uma hora mais tarde, um jipe do exército israelense apareceu e os soldados nos deram carona. Estávamos a salvo”.

Da mesma forma que Ismail e sua família, milhares de africanos se infiltraram em Israel nestes últimos meses. A antena do Alto-Comissariado para os refugiados em Tel-Aviv recenseou cerca de 4.000 eritreus e 3.500 sudaneses. Até então, a maioria dentre eles vivia no Cairo. Quase todos são opositores do regime de Asmara, que impõe com mão de ferro na Eritréia um socialismo autoritário à cubana; ou ainda, sobreviventes do sul do Sudão ou do Darfur, onde os janjawids, milicianos a cavalo a serviço da ditadura de Cartum, espalham o terror. As reportagens que o fotógrafo e jornalista Yonathan Weitzman realizou de agosto de 2006 a agosto de 2008 documentam a chegada caótica desses imigrantes a Israel, desde a perigosa passagem da fronteira até o momento em que eles são acolhidos pelas autoridades. Estas, por sua vez, não sabiam ao certo se elas deviam decretar sua detenção, sua recondução até a fronteira, ou fornecer-lhes uma autorização para residência temporária.

As soluções que elas estudaram para o problema foram mudando à medida que o afluxo de refugiados foi se tornando mais amplo. Na origem do fenômeno estava a repressão sangrenta de uma manifestação, pela polícia egípcia, no Cairo, em dezembro de 2005, que havia provocado a morte de 27 pessoas. De um dia para o outro, centenas de famílias tomaram a decisão de fugirem para Israel. Considerados como os súditos de um “país inimigo”, os refugiados sudaneses foram inicialmente encarcerados.

Contudo, diante da população excessiva nas prisões, e frente à pressão da opinião pública, comovida pelos relatos de “genocídio” no Darfur, as autoridades locais foram obrigadas a libertar uma parte dos refugiados. Os felizes eleitos se aproveitaram então da situação para conseguirem emprego nos kibutz ou nos hotéis de Eilat, uma cidade de veraneio no mar Vermelho. Essa “sorte grande” acaba chegando aos ouvidos daqueles que haviam permanecido no Cairo que, por sua vez, empreendem a mesma viagem pelas trilhas do deserto do Sinai. Na esteira do movimento, congoleses, marfinenses e ganenses que procuram fugir da miséria do seu país, também resolvem arriscar sua sorte.

No verão de 2007, quando percebem que perderam todo controle sobre aquilo que um dos seus dirigentes qualifica de “tsunami humano”, as autoridades de Israel resolveram tomar medidas mais drásticas. Uma construção anexa para a prisão de Ketziot, no meio do deserto do Neguev, foi construída às pressas. No mês de agosto, violando a Convenção das Nações Unidas sobre os refugiados da qual ele é signatário, o Estado judeu enviou de volta para o Egito, 48 refugiados que estavam pedindo asilo, em sua maioria foragidos do Darfur. A medida desencadeou na opinião uma indignação tão grande que ela incitou o governo a emitir um mês mais tarde autorizações para residência temporária, para 600 refugiados sudaneses.

Paralelamente, o primeiro-ministro Ehoud Olmert intimou o seu vizinho egípcio a não deixar passar mais ninguém pela sua fronteira. A mensagem foi bem recebida. Daqui para frente, as tropas que ocupam posições no Sinai passam a atirar em todo e qualquer indivíduo que tentar passar a fronteira. As autoridades do Cairo falam em 16 mortos desde o começo do ano, mas, segundo afirma Sigal Rozen, do Fórum para os direitos dos refugiados, “o número é de fato muito mais importante. Há cadáveres ao longo da fronteira que ninguém se habilita a recolher”. Atualmente, o ritmo das chegadas diminuiu.

Da mesma forma que Ismail, os sudaneses de Israel se esforçam para construírem uma nova vida. Mas esta empreitada tem sido dificultada pelas hesitações do governo em relação à questão. “Ninguém aqui consegue compreender o que Israel pretende fazer ao certo”, diz Mohyeddin Abdallah, o patrão de um pequeno café de Neve Sha’anan, que também é utilizado como hotel improvisado pelos sudaneses sem domicílio. “Até hoje, nenhuma decisão foi tomada a respeito do nosso estatuto”. A esse respeito, o mais recente sinal que foi transmitido pelo governo não é nem um pouco tranqüilizador. O seu projeto de lei sobre “a prevenção das infiltrações” foi aprovado em primeira leitura pelos deputados da Knesset. Ele pune por meio da deportação ou com uma pena de cinco a sete anos de prisão toda pessoa que entrar ilegalmente em Israel. Daqui para frente, os que se habilitam a atravessar o deserto do Sinai sabem o que espera por eles.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

22 Agosto, 2008

Social Affairs Min.: 2/3 of Ethiopians in Israel need help of social services, em inglês – 08/10/07

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Haaretz, 08/10/07

http://www.haaretz.com/hasen/spages/910302.html

Social Affairs Min.: 2/3 of Ethiopians in Israel need help of social services
By Ruth Sinai, Haaretz Correspondent
Two-thirds of all Ethiopian immigrants need the help of the social services, recent data from the Social Affairs Ministry shows. In some towns, some 90 percent of Ethiopian immigrants require such care, numbers which underscore the need for the ministry’s program to help them.

The Ministry has processed or is currently handling cases involving more than 17,000 Ethiopian families with 31,000 children across the country.

Among the families, almost 60 percent – nearly 7,500 families and a total of 41,000 people ¬ are experiencing problems between the husband and wife. Children in such families are classified as at risk of suffering violence or neglect. Nearly 75 percent of Ethiopian families are considered poor.

Sources involved with helping the Ethiopian community said that despite good intentions and funds for helping the families, many counseling programs are not well tailored to answer the community’s needs.

The various social service departments currently offer more than 200 programs for Ethiopian immigrants. These include enrichment courses for both adults and children. The programs are designed to help students enter the job market more easily in a host of fields.

However, only 20 percent of immigrants make use of the schemes. Moreover, only 6 percent of Ethiopian families enroll in counseling programs for the general population, as opposed to programs especially tailored for Ethiopians.

These data prompted the ministry to set up an inter-ministerial project headed by Prime Minister Ehud Olmert to fully categorize and address the problems facing the Ethiopian community in Israel. “There is very scarce use of therapy sessions. They don’t seem to fit in with the immigrant’s outlook,” a statement for the program reads.

The state has decided that everyone should get social services,” says Dr. Edna Bustin, a lecturer at Bar-Ilan University’s School of Social Work. “But social care is a Western concept that Ethiopian immigrants are unfamiliar with. They’re not used to intervention, and we do not have the cultural tools to address the familial problems that are endemic to the immigrant population.”

Bustin, who runs a unique enrichment program aimed at helping Ethiopian social care workers deal with domestic violence, says that the problem of violence often stems from the immense frustration of the Ethiopian man in Israeli society.

“The men from the community are under exceptional stress. In Ethiopia, the man represents the family to the outside world. But here, all the social services are geared toward the women and the children,” says Bustin. According to her, it doesn’t help that the people who are offering the services are women.

“Social services in Israel are Western. That suit won’t fit,” says Magist Mengache, director general of the Ethiopian National Project and a social care expert. “Most immigrants won’t even come to receive the services. We have to come to them.”

Mengache, who immigrated to Israel 23 years ago, believes the answer to helping the community lies in recruiting more Ethiopian social workers. “They speak the language, they understand the mentality and they can raise awareness within the community. They can also encourage families to go ahead and receive help from preexisting social service programs.”

But currently, the ministry reserves a quota of only a few Ethiopian social workers. “We have to ask for donations in the United States just to train an additional 10 social workers from the Ethiopian immigrant community. It’s just shameful,” Mengache says.

1,000 Ethiopian immigrants protest plans to halt Falash Mura aliyah, em inglês – 18/12/07

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Haaretz – 18/12/07

http://www.haaretz.com/hasen/spages/935894.html

1,000 Ethiopian immigrants protest plans to halt Falash Mura aliyah
By Anshel Pfeffer, Haaretz Correspondent

Some 1,000 Ethiopian immigrants demonstrated on Tuesday against the government’s decision to close down next week its operation to bring the Falash Mura to Israel.

The protest march left from the Jerusalem International Convention Center and headed towards the Prime Minister’s Office, where the demonstrators blocked the street. Several attempted to break through the PMO fence.

Cabinet Secretary Oved Yehezkel agreed to receive a delegation of demonstrators for a meeting.

The protest’s organizers took issue with ministry figures that show that some 1,500 eligible Falash Mura are still in Ethiopia, and all are expected to arrive here by next June. Ethiopian immigrant associations claim that there are at least 8,500 others who are eligible to immigrate under the government’s criteria.

Both the Interior Ministry and the Jewish Agency, in contrast, charge that these 8,500 people are merely the tip of an iceberg comprising tens or even hundreds of thousands of Ethiopians who want to immigrate to Israel, and if the government were to accede to their demands, the flow would be endless. Israel has absorbed some 30,000 Falash Mura over the last decade despite having no legal obligation to do so, they said, and the time has come to put a stop to the matter.

Ancestors converted to Christianity

The Falash Mura are Ethiopians of Jewish descent whose ancestors converted to Christianity. They are not Jewish according to Jewish law, but in 1999, under pressure from local Ethiopian immigrant groups and American Jewish organizations, the government agreed to bring them to Israel. They are currently arriving at a rate of about 300 per month.

In late 2006, however, the government decided to bring the remaining Falash Mura here and wind up its operation in Ethiopia within a year.

According to the government’s immigration criteria, which are based on a halakhic ruling by Sephardi Chief Rabbi Shlomo Amar, a Falash Mura must be able to prove their maternal ancestral line is Jewish for seven generations back, have a first-degree relative who is already in Israel and promise to undergo a pro forma conversion upon arrival. Over the last year, the Interior Ministry has refused immigration permits to some 3,000 applicants.

This has outraged Ethiopian immigrant groups. “There are 8,500 people who left their homes and villages and came to Gondar [where the Israeli representatives are based] in the hope of immigrating to Israel,” said Avraham Negusa, who chairs these groups’ umbrella organization. “These are people who have parents, siblings and children already living in Israel. And now, along comes the interior minister and changes the policy.”

Jewish Agency officials also charged that the process is vulnerable to corruption, and in many cases, visa applicants have bribed Ethiopians already in Israel to claim them as first-degree relatives.

In addition, the government accuses American Jewish groups that promote Ethiopian immigration of pressuring Israel to keep absorbing more Falash Mura solely in order to preserve their own raison d’etre. Interior Minister Meir Sheetrit, addressing the Jewish Agency’s board of trustees last month, said bluntly: “We will not bring in more Falash Mura. If the [American Jewish] organizations want to help them so badly, they should bring them to the U.S.”

American Jewish groups are divided on the issue. The Joint Distribution Committee, which runs a clinic in Gondar, sides with the government. The United Jewish Communities, which in the past had pressured the government on this issue, has since softened its stance, and officials in Jerusalem believe that it, too, will fall in line.

But the North American Conference on Ethiopian Jewry (NACOEJ) is more confrontational. “We don’t make decisions for the Israeli government,” said Joseph Feit, one of its leaders, “but according to the halakhic rulings of Israel’s chief rabbis, and according to opinions by the three religious streams here in the U.S. [Orthodox, Conservative and Reform], the Jewishness of the 8,500 Falash Mura remaining in Gondar should be recognized. Nor would it surprise me if there are more Jews in the villages of Ethiopia.”

NACOEJ has already decided to continue its operation in Ethiopia even after the government closes up shop.

Israeli Ethiopian immigrant groups are planning protests in Jerusalem next week. Several Knesset members also object to the government’s decision, and have asked the state comptroller to examine the issue. The cabinet largely sides with Sheetrit, but Ethiopian groups are hoping for support from Shas leader and Industry Minister Eli Yishai.

Amoureuses et prisonnières à Ramallah, em francês

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Courrier International (França), 03/12/07

PALESTINE • Amoureuses et prisonnières à Ramallah
Des centaines d’étrangères, en particulier ukrainiennes et russes, qui ont épousé des Palestiniens et se sont établies en Cisjordanie doivent vivre dans l’illégalité en raison du gel du regroupement familial décidé par Israël.
Alors que nous arrivons au bout de notre conversation, flanquée de son époux et de ses deux enfants, Tatiana Yunis rapporte de la pièce voisine la dernière édition du journal Vesti ["Les Nouvelles", un quotidien russophone israélien]. Sur la première page, on voit une photo avec un swastika et un article sur un groupe de néonazis russophones. Si Tatiana condamne ce phénomène, elle dit néanmoins comprendre comment il a pu se développer, à la lumière de l’attitude de la société israélienne envers les immigrants.

Notre conversation serait banale si elle ne se déroulait à Ramallah, une ville où le Dr Tatiana Yunis achète tous les jours son journal russo-israélien. Avec les sites Internet en langue russe, ce quotidien est l’une de ses sources principales d’information et lui permet de compenser l’immobilité physique à laquelle elle est condamnée. Comme d’autres étrangères qui ont épousé des Palestiniens des Territoires, Tatiana Yunis est une résidente illégale à son propre domicile. Elle est dépourvue de tout statut dans sa nouvelle patrie, persécutée et privée de tous ses droits.

Née il y a trente-trois ans de parents enseignants dans la ville de Zaporojie, en Ukraine orientale, Tatiana Argov y a entamé des études de médecine en 1992 et rencontré à la bibliothèque de la faculté un autre étudiant, un jeune musulman originaire de Naplouse. La simple vue des yeux verts de Tatiana a suffi à Hatam Yunis pour lui dire : “Tu seras ma femme.” “Je lui ai dit qu’il était fou, se rappelle Tatiana, mais il a tenu bon.” L’amour et l’exotisme l’ont emporté. Tatiana l’orthodoxe et Hatam le musulman se sont mariés. Il s’est spécialisé en pédiatrie et elle en gynécologie. C’est à cette époque que Yasmin, aujourd’hui âgée de 11 ans, est née. Karim-Kyrill est né quant à lui il y a quatre ans à Ramallah, bien après leur retour dans les Territoires en 1998.

A cette époque, la sécurité régnait en Cisjordanie et la situation contrastait avec la misère en Ukraine, un pays où les salaires des jeunes médecins sont misérables et où quiconque a une bonne raison de partir le fait. Fidèle au proverbe russe “Ta patrie est ma patrie”, Tatiana avait de bonnes raisons de suivre son époux. Elle pensait tout au plus être quelque temps une étrangère dans ce pays, comme Hatam l’avait été en Ukraine. Ce qu’elle ne savait pas, c’est qu’elle resterait huit ans sans voir ses parents. Au Club des femmes russes de Ramallah, Tatiana rencontre régulièrement 250 femmes au destin identique au sien. La situation est très complexe pour les enfants. Ils étudient à la German Lutherian School et parlent couramment le russe, l’arabe, l’allemand et l’ukrainien, peut-être pour se préparer au jour où ils devront décider qui ils sont exactement.

Avant la seconde Intifada [septembre 2000], la vie était différente. Le jeune couple voyageait beaucoup. Le permis de séjour de Tatiana était encore valide et ils étaient tous deux libres d’aller à Tel-Aviv ou à la plage. Avec le déclenchement de l’Intifada, tout s’est effondré. Le permis de Tatiana a expiré et le gouvernement israélien a gelé toutes les procédures de regroupement familial. Depuis lors, Tatiana est considérée par Israël comme une résidente illégale dans les Territoires. Si elle part, elle ne pourra jamais revenir.

De mes conversations avec des officiels israéliens il ressort que l’enjeu démographique est un facteur officieux d’explication. En quelque sorte, empêcher tout regroupement familial permettrait de réduire le nombre d’habitants [palestiniens] des Territoires. Mais cette explication est absurde, dès lors que les enfants de couples mixtes sont enregistrés comme résidents des Territoires. Le gel du regroupement familial a touché des milliers de familles. Or il ne s’agit pas ici de Palestiniens qui désireraient obtenir la citoyenneté israélienne ou un titre de séjour en Israël : il s’agit au contraire de citoyens étrangers qui désirent être inscrits à un registre palestinien de population comme résidents permanents des Territoires. Mais, même après la signature des accords d’Oslo [en septembre 1993 entre Israël et l'OLP], Israël a conservé le contrôle des registres de population. Etant donné que, depuis sept ans, l’administration [militaire] israélienne n’a jamais émis que des avis négatifs, de nombreux couples ont été incapables de résister à la pression et se sont séparés. Quant à ceux qui ne se sont pas séparés, ils vivent dans la peur.

Lily Galili

Israel confirma mais construções para 2008 em Jerusalém Oriental

Folha de São Paulo, 24/12/07
Israel confirma mais construções para 2008 em Jerusalém Oriental
Expansão de assentamentos, como ataques do Hamas, viola acordo de paz

DA REDAÇÃO

O governo de Israel confirmou ontem que está previsto em seu Orçamento de 2008 dinheiro para a construção de mais 740 casas em dois assentamentos na parte oriental de Jerusalém. O plano, criticado pela Autoridade Nacional Palestina, vai contra a intenção recentemente manifestada por Israel e ANP de retomar as negociações para a paz definitiva.

Tal intenção foi expressa pelo premiê de Israel, Ehud Olmert, e o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, numa conferência patrocinada pelos EUA no fim do mês passado em Annapolis. Ambos se comprometeram a retomar o Mapa do Caminho, plano de 2003 (depois abandonado) que prevê criar um Estado palestino -Jerusalém Oriental é reivindicada para ser sua capital. O plano previa a suspensão da expansão dos assentamentos israelenses nos territórios ocupados.

Mas o Mapa do Caminho também determinava o fim dos ataques de militantes palestinos a Israel, o que tem prosseguido a partir da faixa de Gaza, área controlada pelo grupo radical islâmico Hamas, que venceu as eleições parlamentares de 2006 e neste ano rompeu com o Fatah, partido de Abbas.
Está prevista para hoje a segunda das reuniões israelo-palestinas periódicas acordadas em Annapolis. A primeira, no dia 12, acabou sem avanços.

Também ontem Olmert rejeitou uma oferta de trégua do Hamas. O grupo ofereceu suspender os ataques se Israel levantasse o embargo econômico contra Gaza. O premiê exige que o Hamas reconheça Israel antes de qualquer negociação.

Israel retoma a construção de uma colônia controvertida – 12/07

Le Monde, 06/12/07
Israel retoma a construção de uma colônia controvertida

Michel Bôle-Richard
Correspondente em Jerusalém

Uma semana depois da cúpula de Annapolis (Maryland, EUA), a administração israelense oficializou uma concorrência pública para a construção de 307 novos alojamentos na colônia de Har Homa. A criação desta colônia, próxima a Belém, no final dos anos 1990, já havia provocado controvérsias.

No momento em que deverão ser iniciadas, em 12 de dezembro, negociações que se destinam a tentar criar um Estado palestino, a extensão da colônia de Har Homa é considerada como “uma provocação” pelos palestinos. “Se Israel não cancelar esta decisão, isso irá sabotar os resultados de Annapolis antes mesmo do início da sua aplicação”, declarou Saeb Erakat, o principal conselheiro de Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina.

Para o governo israelense de Ehoud Olmert, esta colônia faz parte da “Grande Jerusalém” e deveria, dentro da perspectiva da criação da Palestina, ser englobada naquilo que os israelenses chamam de a sua “capital unificada e indivisível”. Em contrapartida, para os palestinos, ela está situada no território que foi conquistado durante a Guerra dos Seis Dias (1967) e deve ser incorporada a Jerusalém Leste, da qual a Autoridade Palestina pretende fazer a sua capital.

Apêndice de Jerusalém


Ehoud Olmert comprometeu-se a proibir a construção de novos assentamentos e a desmantelar as colônias “selvagens”, mas ele se recusou a impedir a ampliação das colônias existentes, principalmente nos três grandes blocos que supostamente devem ser integrados ao território israelense. A questão é saber se Har Homa será considerada um apêndice de Jerusalém, como afirma Mark Regev, o porta-voz do governo, para quem “Israel estabelece uma distinção clara entre a Cisjordânia e Jerusalém, uma cidade que está submetida à soberania israelense”.

Dentro da perspectiva das negociações que deverão decidir o futuro de Jerusalém Leste e o traçado das fronteiras da Palestina, Israel pretende conservar as suas conquistas na região. Cerca de 180.000 colonos estão instalados em Jerusalém Leste, e outros 267.500 na Cisjordânia, dos quais cerca de dois terços vivem a oeste da “barreira de segurança” que, quando estiver concluída, terá 760 km de comprimento. Israel deseja conservar o território que ele conquistou por meio da construção da barreira. Este território inclui cerca de 10% da Cisjordânia e também toda a margem ocidental do rio Jordão.

Foi por esta razão que Ehoud Barak, o ministro da defesa, propôs, no domingo, 2 de dezembro, dar o seu apoio a uma lei que permitirá oferecer uma compensação aos colonos que vivem a leste da “barreira de segurança” e desejam abandonar voluntariamente o seu domicílio. Entre 70.000 e 80.000 colonos encontram-se nesta situação. Eles deverão ser evacuados em caso de criação do Estado palestino. Este projeto provocou uma onda de protestos no âmbito da direita e entre os partidários do “Grande Israel”.

Estes últimos também andaram protestando contra as declarações de Ehoud Olmert, que se referiu à destruição de 21 colônias “selvagens”, de um total de 105 que foram listadas pela organização A Paz Agora. Num relatório publicado na terça-feira (4/12), este movimento pacifista que se opõe à colonização da Cisjordânia revela que, das 3.449 ordens de demolição de assentamentos ilegais, apenas 107 foram executadas nos últimos dez anos. Quanto às inúmeras promessas de desmantelar as colônias “selvagens”, elas nunca foram acompanhadas por ações concretas.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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