MIGREPI

4 Novembro, 2008

Ciganos, indesejáveis na França e na Europa, 24/10/08

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Blog Controvérsia, 24/10/08:

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Ciganos, indesejáveis na França e na Europa

Anne Rodier e Laetitia Van Eeckhout

Os ciganos, também chamados de “roms” indesejáveis na França como em toda parte na Europa, empurrados de uma favela para outra, são alvo de evacuações regulares, o que permite expulsar progressivamente o conjunto da comunidade. Em Lille, 70 pessoas foram expulsas de seu terreno na última terça-feira (29) ; outras 55 foram expulsas de Saint-Etienne para a Romênia em 17 de julho. E até o fim de agosto cerca de 633 roms serão evacuados do maior acampamento da França, situado em Saint-Ouen (Seine-Saint-Denis), de um terreno onde deverão ser construídos conjuntos habitacionais.

A quarta-feira (30) foi o último dia concedido aos roms de Saint-Ouen para se candidatarem a um projeto de reinserção. O Estado e as coletividades locais vão criar na comuna uma “aldeia de inserção”. Mais de 300 se candidataram, porém não mais de cem deles poderão se instalar. Os serviços sociais explicam que uma aldeia de inserção não pode receber mais de 20 famílias. As outras terão de partir. O subprefeito do distrito de Saint-Denis, Olivier Dubaut, avisa: “Não vamos tolerar acampamentos selvagens”.

Em projetos semelhantes, somente 21 famílias foram escolhidas em Saint-Denis, e 18 em Aubervilliers. “Falta vontade política. Só um apoio financeiro europeu permitiria realizar projetos de maior amplidão”, estima Marie-Louise Mouket, responsável pelo Pact Arim 93. Essa associação de inserção pela moradia foi encarregada pela prefeitura de Saint-Ouen de realizar uma pesquisa social. Ela permitirá que o prefeito julgue, conforme critérios à sua discrição, as famílias que têm “a vontade de se integrar na sociedade francesa”, no plano profissional, escolar e lingüístico. “Os que não correspondem aos critérios terão a obrigação de deixar o território francês”, afirma Dubaut.

Afinal, 400 ciganos de Saint-Ouen estão ameaçados de expulsão e 94 se inscreveram junto aos serviços de imigração (Anaem) para retornar voluntariamente à Romênia. Segundo o Ministério da Imigração, o valor da ajuda para o retorno está mantido em 300 euros por adulto. Mas em Saint-Etienne e em Saint-Ouen os roms afirmam que lhes prometeram apenas 150 euros.

Amostra de saliva

Seja como for, a maioria não quer voltar para a Romênia. “Queremos ficar na França. Quando fecharem o acampamento, iremos para outro lugar, não queremos voltar para a Romênia nunca. O que queremos? Ter o direito de trabalhar aqui”, afirma Sorin Boti, 34 anos, azulejista, que vive no acampamento de Saint-Ouen. Retornando voluntariamente ou não, nada impede os que desejarem pegar mais um ônibus para a França.

Desde que entraram na União Européia, em 1º de janeiro de 2007, os romenos e os búlgaros continuam submetidos a dispositivos especiais em termos de trabalho. Mas eles são cidadãos europeus plenos, que se beneficiam da liberdade de circulação, como lembrou o Conselho de Estado em 19 de maio. Como os outros europeus, eles devem além de três meses de permanência “ou ter um emprego, ou possuir meios suficientes de subsistência”, segundo a circular de 22 de dezembro de 2006, especialmente publicada pelo Ministério do Interior na véspera de sua entrada na União. Caso não cumpram as condições de permanência, romenos e búlgaros podem ser expulsos. Dos 23.186 estrangeiros expulsos em 2007, 2.271 romenos e 810 búlgaros foram devolvidos a seus países, por bem ou à força.

Os meios associativos denunciam regularmente o absurdo dessas expulsões, pois os roms voltam para a França. De 55 pessoas que partiram de Saint-Etienne em 17 de julho, duas já voltaram em duas semanas, afirma George Gunther, responsável pela Rede de Solidariedade com os Roms. Nessa aglomeração, a comunidade rom continua estável há cinco anos, com 250 a 300 pessoas.

Para evitar que eles voltem à França e se beneficiem várias vezes da ajuda de retorno humanitário, a lei de 20 de novembro de 2007 prevê um fichamento biométrico dos beneficiários da ajuda de retorno. O decreto de aplicação ainda está sendo preparado.

Mas na prática o recenseamento começou. Em Saint-Ouen, a pesquisa social – da qual os roms participaram maciçamente – constitui na verdade um fichamento preciso que será enviado à prefeitura: identidade, data de entrada na França, perfil profissional, médico e escolar. O recenseamento é completado pelos dossiês da Anaem, que trabalha em estreita colaboração com a polícia. Em Saint-Etienne, a prefeitura indica claramente que “o objetivo dos controles é registrar as identidades em um arquivo para entregar as OQTF [obrigação de deixar o território francês] em três meses, antes das evacuações”.

Em Alès (Gard), os roms beneficiários da ajuda ao retorno foram convocados pela polícia para tirar impressões digitais, foto e amostra de saliva. “Um caso de proxenetismo envolvia menores, e é nesse âmbito que a autoridade judiciária procedeu à retirada de amostras”, explica um conselheiro de Hortefeux. E este insiste: o fichamento biométrico não será aplicado só aos ciganos. De todo modo, na França, assim como na Itália, o fichamento dos roms começou.

Em Portugal, juiz qualifica ciganos de “pérfidos”

O julgamento provocou um clamor em Portugal. Em uma decisão proferida pelo tribunal de Felgueiras na quarta-feira (30) cinco ciganos condenados a penas de prisão por ter agredido policiais foram qualificados pelo juiz de “pessoas malvistas socialmente, marginais, pérfidos, totalmente dependentes do Estado e que lhe pagam desobedecendo e atentando contra a integridade física e moral de seus agentes”. A juíza explicou que as condições de habitação dos cinco homens eram “ruins, não devido ao espaço físico em si, mas devido ao estilo de vida de sua etnia (pouca higiene)”. Há 50 mil ciganos em Portugal. “Estamos cansados de discriminações”, reagiu a Federação de Associações Ciganas do país.

Os ciganos na Europa

A maior minoria da Europa, os ciganos seriam 7 milhões, originários principalmente da Romênia e dos Bálcãs. Seu número é difícil de definir porque existem poucas estatísticas étnicas. O Conselho da Europa define dados que reúnem os ciganos e a “gente de viagem”. A Romênia contaria com 1,8 milhão de ciganos e a Bulgária, 650 mil. Na França, 400 mil pessoas são recenseadas como “gente de viagem e roms”. Entre elas, os ciganos são muito minoritários.

Os destinos preferidos pelos ciganos fora de seu país de origem são a Itália, com 200 mil roms, e a Espanha, com 700 mil. A Itália deverá fornecer no início de agosto à Comissão Européia um relatório sobre o recenseamento realizado nos acampamentos de Milão, Roma e Nápoles.

Le Monde

Blog Controvérsia, 30/09/08:

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A Europa mestiça

Leneide Duarte-Plon

Para o historiador Serge Gruzinski, a França de Edith Piaf desapareceu, e os franceses não sabem como lidar com a sua nova cultura miscigenada

Para o historiador francês Serge Gruzinski, o discurso e as medidas antiimigratórias na Europa, promovidos por políticos populistas, ocultam as necessidades reais do capitalismo europeu de uma mão-de-obra barata, o que é propiciado pelos imigrantes de vários países que aportam ao continente.

Gruzinski é curador da exposição “Planète Métisse – To Mix or Not to Mix” (Planeta Mestiço – Misturar ou Não Misturar), em exibição no Museu do Quai Branly, em Paris. Na sua opinião, a cultura popular européia é hoje mais “mestiça” do que a brasileira ou americana.

 

“Os estrangeiros sempre chegaram à Europa, mas o problema agora é que esses novos mestiços não são estrangeiros. Eles são franceses como o francês branco e de olhos azuis. A tradição intelectual, política e educativa francesa, não tem nenhuma resposta para essa nova situação”, diz o historiador. “A cultura francesa clássica já não existe. A cultura de Edith Piaf já desapareceu. Hoje, a cultura popular na França já é uma cultura mestiça.”

Na exposição, os objetos contam a história de encontros de culturas que produzem uma nova cultura: mestiça. Entre os produtos culturais mestiços, o historiador escolheu a música brasileira, representada por doze diferentes manifestações musicais.

Especialista na história das Américas, autor de “História do Novo Mundo” (Edusp) e de “O Pensamento Mestiço” (Companhia das Letras), entre outros livros, Gruzinski conhece muito bem o Brasil, para onde viaja freqüentemente para participar de seminários, e fala perfeitamente o português.

Ele é também diretor de pesquisa no Centre Nacional de Recherches Scientifiques (CNRS) e diretor de estudos na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS).

Na entrevista a seguir, dada em sua sala de trabalho na EHESS, Gruzinski fala da exposição, do “pensamento mestiço” e de novas formas de mestiçagens que se dão no solo europeu e no mundo.

Para ele, a Ásia é o novo celeiro das mestiçagens. “Os antropófagos, dos quais falaram muito bem os modernistas do Brasil, nos anos 20, se deslocaram. É a Ásia que faz a antropofagia agora”, afirma.

O sr. é o autor de um livro intitulado “O Pensamento Mestiço”. Como se forma esse pensamento? Ele é o resultado do encontro de duas ou mais culturas, quaisquer que elas sejam elas?

Serge Gruzinski: De uma maneira um pouco paradoxal, eu diria que as culturas nunca se encontram. As culturas não existem. Só existem seres, homens e mulheres que se encontram. E as coisas que se encontram são sempre fragmentos de culturas.

A idéia de que existem a cultura francesa e a cultura brasileira e que essas culturas se encontram é uma coisa completamente alegórica, é uma fantasia, uma imaginação.

São indivíduos ou grupos que se encontram e que misturam, não o conjunto da cultura, mas elementos escolhidos ou não de ambas as culturas. Essas se encontram através de indivíduos e sempre em contextos históricos que, muitas vezes, são assimétricos, de desigualdade, de relação de colonização.

Por exemplo, a cultura francesa quando considera as culturas latino-americanas “exóticas” não impede que haja comunicação entre o mundo latino-americano e a França, mas tem uma posição hierárquica que pensa a cultura francesa como cultura universal e a outra cultura, seja mexicana seja brasileira, como uma cultura “exótica”.

Existem dois níveis bem distintos. De um lado, as práticas culturais, ou seja misturar a gastronomia, a alimentação ou até mesmo as músicas. Já o pensamento mestiço é uma coisa mais complexa, porque supõe a mistura de mecanismos intelectuais diversos.

Por exemplo?

Gruzinski: Ele é o produto de pelo menos duas maneiras de pensar o mundo com instrumentos intelectuais distintos. Ou seja, o pensamento mestiço supõe um certo grau de consciência, não só o fenômeno de misturar, mas supõe uma capacidade de eleger nas duas culturas certos elementos e combiná-los.

Isso supõe toda uma estratégia. E razões bem precisas para fazê-lo. No caso dos índios do México, que estudei, era uma maneira de resistência, de conservar elementos das culturas pré-hispânicas, integrando-as aos elementos europeus, para encontrar uma forma de integração na nova sociedade colonial sem perder e esquecer todo o patrimônio pré-hispânico.

 

Então, temos esse pensamento mestiço que corresponde a um tipo de estratégia voluntária, deliberada, calculada. Também a estratégia da Igreja Católica de misturar elementos católicos com elementos locais em toda a América Latina para enraizar o seu culto é uma forma de pensamento mestiço. Escolher, misturar para conseguir os sincretismos. Em certo momento, esse movimento de manipulação escapa à Igreja Católica, e os sincretismo têm vida própria.

 

O que é um “objeto mestiço”?

 

Gruzinski: A exposição é num lugar que conserva objetos, o Museu do Quai Branly. A idéia era utilizar objetos para contar, explicar e interpretar o processo da mestiçagem. Um objeto mestiço é aquele que pertence a várias civilizações ao mesmo tempo.

 

Por exemplo, ele é africano e europeu, americano e europeu, asiático e americano. Temos na exposição dois objetos que são turcos e da China ao mesmo tempo.

 

O tema da exposição são as mestiçagens planetárias, ou seja, aquelas surgidas entre América, África, Ásia e Europa. São formas de mestiçagens que correspondem atualmente à situação européia com grupos africanos ou asiáticos formando a nova civilização européia.

 

Por exemplo, a ópera-balé “Padmavâti”, de Albert Roussel, um autor francês do início do século XX. Essa ópera-balé estreou na Ópera de Paris em 1923. Neste ano (2008), ela foi remontada em Paris, e o diretor foi um cineasta famoso de Bollywood, da Índia. Ou seja, música francesa e direção de um cineasta indiano.
Essa é a nova cultura parisiense, mistura entre as coisas francesas e as outras culturas. “Padmavâti” é um objeto mestiço, uma obra mestiça.

 

O catálogo da exposição explica que a música é, por excelência, o recipiente da mestiçagem. Na exposição, o Brasil é apresentado como uma síntese da música mestiça, com todos os seus ritmos e gêneros. Por que a exposição só mostra a música brasileira, entre tantas outras músicas mestiças que o catálogo cita?

 

Gruzinski: Por várias razões. Primeiramente, pela enorme contribuição da música brasileira à música do século 20. E no caso do Brasil temos rapidamente a passagem da música popular à música nacional, com o samba e a “world music”, ou seja, a recuperação da música do Brasil nesse “melting pot” das mestiçagens internacionais das músicas.

 

Há toda essa dimensão do passado histórico africano da escravidão e da criação de uma cultura nacional e popular a partir da música brasileira, que, com Carmen Miranda e o que se seguiu a ela, acaba tornando-se um produto industrial, uma música internacional e parte da “world music”.

 

É óbvio que o jazz, o gospel, as músicas da Argentina e do México são também material interessante. O caso do Brasil nos interessou para podermos dar uma idéia, ainda que superficial, de uma genealogia, de um processo que começa na época colonial e de uma mestiçagem que se enriquece e muda continuamente.

 

No caso do Brasil, o que é extraordinário é que vemos que ele tem essa capacidade de reconstituir formas mestiças, recriar formas mestiças. Há uma recriação constante. As doze músicas mostradas no museu dão uma idéia de um processo que começou e continua, é permanente.

 

Também é importante recordar que, por trás dessas músicas, e também de todo o continente americano, temos o fenômeno da escravidão. A exposição pretende contribuir para desenvolver um olhar mais crítico sobre o passado, sobre a realidade cultural.

 

A gente deve saber que as mestiçagens do Brasil e da América espanhola tiveram um preço altíssimo, que foi a deportação sistemática dos povos africanos para o continente americano.

 

A idéia é levar o público a pensar os dois elementos, a riqueza das mestiçagens, mas também o contexto histórico, para evitar as ilusões que levam a pensar que a mistura das culturas significa igualdade.

 

Sabemos que, no caso do Brasil, a circulação entre as culturas e as misturas podem corresponder a uma situação de injustiça social total. Existe esse perigo de pensar que podemos resolver as fraturas sociais com as mestiçagens.

 

O governo da França gosta de utilizar esse tipo de ilusão, falando da liberdade de culturas e da mistura das culturas, para não resolver os problemas reais, que são sociais e econômicos.

 

As políticas antiimigração na Europa significam que os países temem a mestiçagem cultural e étnica ou são simplesmente um problema econômico e demográfico?

 

Gruzinski: Diria que é um tema extremamente confuso, atualmente. Existe um discurso antiimigração, mas por outro lado o capitalismo europeu, o desenvolvimento da União Européia precisa de mão-de-obra, e barata.

 

No discurso populista -dos políticos, da imprensa- aparece o medo. Num nível real, o capitalismo europeu tem necessidades econômicas que o levam a introduzir cada vez mais africanos, asiáticos e até ameríndios, que vêm da América Latina para a Espanha.

 

Há esse duplo aspecto do fenômeno. Nesse populismo não há somente um discurso político superficial. É verdade que os europeus estão entrando numa sociedade completamente distinta.

 

Nela, existem turcos, magrebinos (árabes do norte da África) e negros africanos que nasceram no continente europeu, o que significa que hoje a Europa é um continente muito mais mestiço do que o Brasil. O Brasil tem as mestiçagens do passado. A Europa está entrando numa fase em que grande parte da população é mestiça.

 

Basta ver a televisão, quem são os jovens da periferia de Paris e das grandes cidades? São magrebinos e negros. Moro no XV arrondissement (bairro parisiense) e vejo que os jovens são negros.

 

Parte da população européia já é africana ou asiática, e muitos têm a religião muçulmana. E isso suscita medo em muitas pessoas. A Europa não estava acostumada a conviver com a mestiçagem nascida na Europa.

 

Os estrangeiros sempre chegaram à Europa, mas o problema agora é que esses novos mestiços não são estrangeiros. Eles são franceses como o francês branco e de olhos azuis. Eles nasceram na República, são africanos ou asiáticos completamente mestiços, ocidentalizados, afrancesados. A tradição intelectual, política e educativa francesa, não tem nenhuma resposta para essa nova situação.

 

As respostas estão sendo construídas?

 

Gruzinski: É preciso construir, mas o problema é que muitas vezes a construção se faz através do populismo, manipulando os medos, não para encontrar novas formas de convivência, mas para captar eleitores, votos. Não para desenvolver políticas novas, mas para tentar provocar reações passageiras, para assegurar o poder de um grupo ou de outro.

 

O francês médio, branco tem medo da miscigenação étnica ou quer preservar a cultura francesa? Qual é o fantasma deste francês médio?

 

Gruzinski: A cultura francesa clássica já não existe. A cultura de Edith Piaf já desapareceu. A cultura dos Ch’tis, que os estrangeiros conhecem através dos filmes, já não existe, desapareceu há meio século.

 

Essa cultura francesa clássica desapareceu, os jovens não a conhecem. A idéia de preservá-la me parece algo equivocado, porque esse patrimônio não tem mais vida.

 

Hoje, a cultura popular na França já é uma cultura mestiça. Basta ver os discos, as músicas, ela são uma mistura franco-africana. E a maneira dos jovens se vestirem é uma cópia das culturas populares dos Estados Unidos. Esse medo é sobretudo a falta de modelos. A França não sabe como se orientar nessa nova paisagem.

 

A miscigenação étnica não assusta?

 

Gruzinski: Acho que não. Quando há uma manifestação racista no futebol, imediatamente a televisão mostra e aparece uma série de mecanismos muito fortes de reação. Basta uma palavra racista, um escândalo, para que a mídia denuncie.

 

As novas leis também são eficazes para limitar toda forma de racismo. No mundo dos jovens, as músicas e a maneira de vestir estão criando uma cultura mestiça.

 

O problema que vejo é na parte mais velha da população, que é rica, aposentada, pertence ao mundo antigo e é ali que existe uma reação. Os políticos também ainda não conseguem pensar uma sociedade francesa como uma sociedade mesclada, misturada.

 

Por quê?

 

Gruzinski: A formação intelectual deles é de uma França monolítica e branca. A França de Michel Foucault não é uma França mestiça, nem a França de Deleuze, nem a França de Baudrillard, nem a de Jean-Paul Sartre.

 

Aquela França tinha problemas sociais e econômicos, mas não tinha diferenças culturais. Isso quer dizer que, para nós, intelectuais, como para os políticos, os instrumentos à nossa disposição correspondem a uma sociedade que já não existe. Isso provoca medo e desorientação.

 

Não há na França reações violentas de guetos, mas há preocupação, porque estamos entrando num mundo para o qual não temos as chaves. O Brasil tem as chaves, o México tem as chaves.

 

Como seria a construção dessas chaves na França?

 

Gruzinski: O problema é duplo, porque é a relação com franceses que procedem de outras civilizações, sem falar do fato de que a França também já é parte da Europa.

 

Para mim, como historiador, um caminho seria a construção de uma memória européia aberta para o mundo. A França não vai resolver sozinha. O desafio é duplo. É a relação com homens e mulheres que chegam de outros mundos, mas também a convivência com os belgas, italianos, alemães, portugueses, espanhóis. Como criar uma memória histórica comum?

 

Então, o desafio é ao mesmo tempo interno e externo às fronteiras de cada país?

Gruzinski: O problema não é saber apenas como um francês branco, de origem cristã, vai conviver com o magrebino ou africano, mas também como vai conviver com o polonês, com o italiano.

 

O problema é que a escola também não prepara nem forma cidadãos europeus. O cidadão europeu tem que ser inventado e, para isso, temos que religar constantemente a Europa com o resto do mundo. E o Brasil é parte da história européia.

 

Em que sentido?

 

Gruzinski: Não no sentido colonial. Mas o Brasil é uma manifestação da Europa nos seus contatos com o mundo índio e o mundo africano.

 

Vocês são um dos espelhos, com o México e os Estados Unidos. E não podemos imaginar uma história européia desligada dos laços com a América, a África e a Ásia. Isso não quer dizer, como antes, a reivindicação de um passado civilizador. De jeito nenhum. Mas quer dizer que nós temos responsabilidades.

 

O Brasil não é a Europa, mas fala português. O Brasil faz parte do mundo ocidental. Um cidadão europeu tem que levar em conta as raízes americanas, africanas e asiáticas. Mas sobretudo americanas.

 

Como o sr. analisa o pensamento de Gilberto Freyre? Como resumiria a mestiçagem brasileira e como vê o racismo no Brasil, que insistimos em negar, mas está muito perceptível nas relações sociais?

 

Gruzinski: Não gosto da idéia de que um francês possa opinar sobre o Brasil e decidir se os brasileiros são racistas ou não. Tenho umas idéias mais precisas sobre o México, porque vivi lá muito tempo.

 

Gilberto Freyre é muito importante. A contribuição do Brasil, da América Latina, não é unicamente na experiência da mestiçagem, mas também do pensamento da mestiçagem.

 

Para nós, a prioridade é aprender que o Brasil produz também intelectuais, conceitos e idéias, não unicamente música. E, nesse caso, se tentamos pensar o que é a mestiçagem como processo e mistura étnica e cultural, não são muitos os pensadores no planeta.

 

Há pensadores no Brasil, como Sergio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, e no México, como Gonzalo Aguirre Beltran, que nos podem ajudar numa reflexão intelectual sobre o processo.

 

E, para mim, antes de discutir a validade das hipóteses e das idéias de Freyre, é fundamental dizer por que nos interessa a experiência latino-americana: pelo fato de ser uma experiência de práticas e de idéias.

 

Então, a relação com a América Latina se inverte. Para os europeus, é a oportunidade de aproveitar esse patrimônio intelectual, de todas as reflexões sobre a mestiçagem na constituição do Brasil. Mas também toda a contribuição dos pensadores do México e do Peru.

Isso é bastante difícil explicar aos europeus: que os latino-americanos podem também pensar, ter uma contribuição teórica fundamental para hoje. Mas o único continente que tem experiência da mestiçagem planetária é a América Latina. Não aconteceu na África, tampouco na Ásia. A mistura de ameríndios, europeus, africanos e asiáticos é uma experiência do Brasil, do México, da Argentina e dos Estados Unidos.

Como o sr. vê as mestiçagens que estão se produzindo na Europa, com os muçulmanos?

 

Gruzinski: Os muçulmanos europeus são completamente ocidentalizados. Não praticam um islã clássico, tradicional. 

Mas em algumas cidades francesas há uma reação à construção de mesquitas.

Gruzinski: É verdade. Mas devemos pensar que esses muçulmanos são europeus, nascidos na Europa e praticam um islã ocidentalizado. Não há uma islamofobia na França. Eu também me posiciono contra as mesquitas por uma questão de laicidade.

O problema não é que o islã esteja ameaçando o cristianismo. O problema é que um país como a França pensava ter solucionado a questão das religiões controlando o catolicismo e mantendo-o numa zona da vida privada, com a separação da Igreja e do Estado. Agora reaparece a questão das religiões. A oposição ao islã é que ele recoloca essa questão a um país laico.

A separação da igreja e do Estado, com a lei de 1905, foi feita por pressão dos judeus e dos protestantes, em reação à posição de hegemonia do catolicismo. Em 1905, a situação estava resolvida. Ela agora surge de novo.

Mas a construção de mesquitas não seria bom para circunscrever a prática religiosa dentro dos templos e não trazê-la para o espaço público? Não ficaria mais fácil controlar a laicidade?

Gruzinski: Não sei. Politicamente, o eleitorado de origem muçulmana é importante. Há uma vontade de controlar e uma vontade de captar. Por outro lado, podemos imaginar uma secularização do islã, que terminará como o catolicismo ou o protestantismo, ou seja, invisível na paisagem.

Acho que exageramos muito o fundamentalismo islâmico, e não vemos o islã completamente afrancesado, invisível, dos muçulmanos de tradição e que não praticam.

Durante vários séculos, as Américas foram vistas pelos olhos dos viajantes, fotógrafos e pintores europeus. Na exposição, o sr. mostra que a Ásia tem agora um novo olhar sobre a América, e a exposição exibe filmes que provam isso. Como o cinema mostra o olhar dos asiáticos sobre a América? 

Gruzinski: O olhar sobre a América, em parte e cada vez mais, é asiático. Ou seja, a construção de um imaginário do que é a América, hoje não passa através da Europa e nem unicamente através dos cineastas do continente americano, mas cada vez mais por esta capacidade dos asiáticos de ver, de olhar e de criar imagens desse continente americano.

Ou seja, parto do princípio de que, hoje, a máquina das mestiçagens, o pólo mais dinâmico, e talvez ameaçador, é a Ásia. Essa riqueza incrível das mestiçagens do Brasil é um fato do passado. Essas músicas são do passado, são músicas do século XX.

Esse mundo que está construindo formas novas, imaginários novos, se deslocou para a Ásia, e nós vemos isso através dessa produção cinematográfica, que pode ser de alta qualidade, mas também muito popular.

Em Belém do Pará, os DVDs mais alugados são asiáticos. E os mangás japoneses são o que os jovens lêem hoje. Nós, intelectuais, não nos damos conta da capacidade do mundo asiático de controlar o imaginário, de formar esse imaginário.

Quer dizer que, hoje, o lugar onde se fazem as mestiçagens mais intensamente é na Ásia?

Gruzinski: Sim, é onde está o poder econômico, financeiro e industrial mais forte, na China. O “Le Monde” dizia há pouco que a China é o ateliê do mundo. Vi também recentemente um desenho do presidente chinês ao lado de Bush, pequenininho. Esse desenho queria dizer que o tempo de Bush acabou.

Acho que, no nível cultural, artístico e cinematográfico, vemos essa chegada contínua de filmes e de obras de arte que pouco a pouco aparecem capazes de reinventar todas as formas de cinema, misturando as cinematografias asiáticas, que são já velhas, com as americanas ou européias.

É uma capacidade de antropofagia. Os antropófagos, dos quais falaram muito bem os modernistas do Brasil, nos anos 20, se deslocaram. É a Ásia que faz a antropofagia agora. 

E em que sentido isso seria uma ameaça?

 

Gruzinski: Admiro muito as cinematografias asiáticas, mas a China é um país muito perigoso. E vemos isso a cada dia. O país que tem mais peso no mundo, maior crescimento, maior riqueza, é uma ditadura totalitária. Isso é uma coisa impressionante. Talvez um dia lembremos com saudade da hegemonia norte-americana, com seu humanismo. 

Leneide Duarte-Plon

É jornalista e vive em Paris.

 

“Trópico”

Na França, crianças muçulmanas recebem educação católica, 26/09/08

International Herald Tribune, 26/09/08:

Na França, crianças muçulmanas recebem educação católica

Katrin Bennhold

Em Marselha (França)

A cafeteria bem iluminada da Escola Católica Saint Mauront está notavelmente silenciosa: é época do Ramadã, e 80% dos alunos são muçulmanos. Quando soa a campainha anunciando o horário do almoço, meninos e meninas passam em frente a crucifixos e uma grande cruz de madeira no corredor, dirigindo-se à oração muçulmana realizada aproximadamente ao meio-dia.

“Aqui há respeito pela nossa religião”, afirma Nadia Oualane, 14, com a cabeça coberta por um lenço preto.

“Na escola pública não me deixariam entrar usando véu”, acrescenta ela, apontando para uns prédios próximos. Oualane, que tem ascendência argelina, quer ser a primeira pessoa da sua família a freqüentar uma universidade.

A França possui apenas quatro escolas muçulmanas. Assim, as 8.847 escolas católicas do país tornaram-se um refúgio para os muçulmanos que buscam aquilo que um setor público sobrecarregado e secularista muitas vezes não tem: espiritualidade e um ambiente no qual as boas maneiras contem tanto quanto a matemática e as notas altas.

Não há estatísticas nacionais sobre isso, mas educadores muçulmanos e católicos estimam que atualmente os alunos muçulmanos representam 10% dos dois milhões de estudantes matriculados nas escolas católicas francesas. E nos bairros de Marselha e no norte industrial do país habitados por pessoas de várias etnias, os muçulmanos podem constituir-se em mais da metade dos alunos das escolas católicas.

A migração silenciosa para escolas católicas pagas demonstra o quanto se tornou difícil para as escolas públicas, instrumentos tradicionais para a integração na França, cumprir a promessa de oportunidades iguais – independentemente da cor, do credo e do bairro em que se mora.

Tradicionalmente, a escola republicana, um fruto da Revolução Francesa, é o local de formação dos cidadãos. A debandada de alunos dessas escolas é mais uma indicação do desafio enfrentado pela forma rígida de secularismo conhecida como “laicite”.

Após séculos de guerras religiosas e atritos entre a república incipiente e um clero impertinente, uma lei de 1905 garantiu a liberdade religiosa na França predominantemente católica, mas também deixou de fornecer apoio financeiro e reconhecimento formal a todas as religiões. A educação religiosa e os seus símbolos foram banidos das escolas públicas.

À medida que a França tornava-se o lar de cinco milhões de muçulmanos, a maior comunidade islâmica da Europa Ocidental, novas rachaduras surgiram nesse sistema. Em 2004, uma proibição do uso do lenço de cabeça nas escolas públicas gerou protestos e provocou um debate sobre o relaxamento de interpretações da lei de 1905.

“O secularismo tornou-se a religião do Estado, e a escola republicana é o seu templo”, diz o imame Soheib Bencheikh, ex-grande mufti de Marselha e fundador do Instituto Superior de Estudos Islâmicos. A filha mais velha de Bencheikh freqüenta uma escola católica.

“É uma ironia. Mas a Igreja Católica de hoje é mais tolerante quanto ao islamismo – e o entende mais – do que o Estado francês”, afirma ele.

Para alguns, fatores econômicos fazem das escolas católicas uma boa escolha, já que elas tendem a ser menores do que as escolas públicas e são bem mais baratas do que as escolas particulares em outros países.

Segundo as autoridades que administram as escolas católicas, o governo paga salários aos professores e um subsídio por cada estudante, e em troca estas instituições aplicam o currículo nacional e aceitam alunos de todas as fés.

No sistema educacional francês altamente centralizado, o currículo nacional determina que não haja nenhuma educação religiosa além de exames genéricos sobre fé e dogmas religiosos, conforme ocorre nas aulas de história. A instrução religiosa, como o catecismo católico, é estritamente voluntária.

As escolas católicas têm liberdade para permitir que as meninas usem lenços. Muitas delas impõem a proibição governamental, mas várias outras, como a Saint Mauront, toleram uma versão discreta dessa peça de vestuário.

Situada sob um viaduto, em uma região de projetos urbanos no norte da cidade, a escola encarna as modificações ocorridas na sociedade francesa no decorrer do século passado.

Fundada em 1905, no prédio de uma ex-fábrica de sabão, a princípio a escola atendeu principalmente a alunos católicos franceses, diz o diretor Jean Chamoux. Antes da Segunda Guerra Mundial, alguns imigrantes italianos e portugueses vieram para a região. À partir da década de 1960 foi a vez dos africanos das ex-colônias francesas.

Atualmente há pouquíssimas faces brancas entre os 117 alunos. Cerca de uma em cada cinco garotas cobre a cabeça.

Chamoux, um homem jovial de movimentos vagarosos, está aqui há 20 anos e parece conhecer cada aluno pelo nome. No seu escritório apertado, sob um crucifixo, ele fala das virtudes das escolas católicas. “Nós praticamos a liberdade religiosa, as escolas públicas não”, afirma. “Adotamos o currículo nacional. As atividades religiosas são inteiramente opcionais. Se eu proibisse o uso do lenço de cabeça, metade das meninas não freqüentaria escola alguma. Prefiro tê-las aqui, conversar com elas e dizer-lhes que elas contam com uma opção. Muitas na verdade deixam de usar o véu depois de certo tempo. O meu objetivo é garantir que, até se formarem, elas tenham feito uma escolha consciente, qualquer que seja esta escolha”.

Os defensores do secularismo respondem dizendo que tal tolerância poderia encorajar outros pedidos especiais e valores anti-ocidentais, tais como a opressão da mulher.

“O lenço de cabeça é um símbolo sexista, a discriminação entre os sexos não tem lugar na escola republicana”, afirmou o ministro da Educação, Xavier Darcos, em uma entrevista por telefone. “Este é o motivo básico pelo qual somos contrários ao uso lenço”.

Chamoux suspeita que algumas alunas – “uma pequena minoria”, diz ele – usam o lenço devido à pressão da família. Ele reconhece que certos pais exigem rotineiramente que as filhas sejam dispensadas das aulas de natação. Quando tal licença é negada, as meninas apresentam atestados médicos e, desta forma, deixam de freqüentar estas aulas. Recentemente ele respondeu com um não quando alunos pediram a remoção do crucifixo de uma sala de aula na qual eles desejavam fazer as orações conjuntas durante o Ramadã.

O professor de biologia foi contestado ao ensinar a Teoria da Evolução de Darwin, e o clima nas aulas de história pode ficar agitado quando se discute as cruzadas ou o conflito israelense-palestino. Chamoux recorda-se que, após os ataques de 11 de setembro de 2001, alguns alunos deixaram os professores chocados com a alegria que manifestaram.

Chamoux diz que a escola toma providências imediatas contra comentários ofensivos, mas tenta também respeitar o islamismo. A escola leva os feriados religiosos muçulmanos em consideração quando planeja as reuniões entre pais e professores. Há dois anos são fornecidas aulas opcionais de árabe, em parte como forma de afastar os alunos das aulas de Alcorão nas mesquitas vizinhas, que, segundo se acredita, pregam o islamismo radical.

Neste ano, 17 alunos se prontificaram a ficar na escola após as aulas, no mês da Quaresma, a fim de prepararem uma apresentação de slides mostrando as 14 estações da cruz para o sermão da Páscoa, realizado na igreja. Nathalie Geckeler, que liderou o projeto, conta que somente quatro eram cristãos. Dez dos 13 alunos muçulmanos assistiram ao sermão.

Quando se pergunta aos pais por que eles escolheram a escola católica, a resposta é rápida: “Deus é o mesmo para todos”, diz Zohra Hanane, que se esforça para pagar a taxa anual de 249 euros para que a filha Sabrina possa freqüentar a Saint Mauront.

Mas a fé não é o único argumento. Hanane, que é mãe solteira e está desempregada, diz que não quer a filha no meio do “grupo errado”. Muitas crianças da região freqüentam a escola pública que tem seis vezes mais alunos do que a católica. “A escola católica é cara, e às vezes é difícil pagar, mas quero que os meus filhos tenham uma vida melhor”, diz Hanane. “Atualmente esta parece ser a melhor opção”.

Do outro lado da cidade, no prédio brilhante da Escola de Segundo Grau Saint Trinite, no bairro afluente de Mazargues, as regras e as condições são diferentes, mas os argumentos são similares.

As garotas muçulmanas não usam lenços. Mas Imedne Sahraoui, 17, muçulmana praticante e filha de um ex-diplomata argelino que virou empresário, está aqui, acima de tudo, para obter notas altas e ingressar em uma faculdade de administração, de preferência no exterior. “As escolas públicas simplesmente não preparam a gente da mesma forma”, diz ela.

Segundo uma recente lista publicada pela revista “L’Express”, 15% das 20 melhores escolas de segundo grau francesas são católicas. As escolas católicas continuam sendo populares entre os muçulmanos, até mesmo em cidades nas quais têm surgido instituições muçulmanas de ensino: Paris, Lyon e Lille.

A construção de escolas muçulmana tem sido dificultada em parte pela relativa pobreza da comunidade muçulmana, que conta com menos imóveis do que a Igreja Católica. E somente uma escola muçulmana, a Escola de Segundo Grau Averroes, situada em um andar da mesquita de Lille, atendeu aos requisitos para receber subsídios estatais. As três outras cobram mensalidades substancialmente mais elevadas para poderem sobreviver.

Além disso, conforme observa M’hamed Ed-Dyouri, diretor de uma nova escola muçulmana nos arredores de Paris: “Primeiro temos que mostrar o nosso valor”. Por ora, ele pretende matricular o filho em uma escola católica.

Tradução: UOL

20 Outubro, 2008

Milhares marcham em Paris em defesa da imigração para a UE , 18/10/08

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Folha Online – 18/10/08

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u457750.shtml

Milhares marcham em Paris em defesa da imigração para a UE

colaboração para a Folha Online

Milhares de pessoas participaram de uma manifestação neste sábado em Paris a favor de “pontes e não muros” entre os povos, para denunciar o caráter restritivo das políticas migratórias européias.

A manifestação acontece dois dias depois da aprovação pelos líderes europeus do Pacto Europeu sobre Imigração e Asilo, que estabelece regras mais rígidas para a entrada de estrangeiros em todos os países da UE (União Européia).

O protesto foi convocado por ao menos 300 ONGs de 30 países, principalmente africanas, que desde sexta-feira (17) organizam uma “reunião cidadã” para protestar contra uma visão européia muito restritiva à imigração.

Em passeata, os manifestantes percorreram o centro da capital francesa; a caminhada começou no início da tarde na Praça da Bastilha. A manifestação deverá terminar na noite deste sábado com um show gratuito na Praça da República.

Cerca de 7.000 pessoas participaram do protesto, segundo seus organizadores. Já a polícia de Paris indicou 1.400 participantes.

Pacto

Na quinta-feira (16), os líderes da UE (União Européia) aprovaram por unanimidade o Pacto Europeu sobre Imigração e Asilo, que estabelece uma política comum para a imigração. O acordo traz os princípios a serem seguidos para criar um controle mais estrito sobre a entrada de estrangeiros nos 27 países que compõem o bloco.

O objetivo do pacto é controlar a imigração conforme a necessidade do mercado de trabalho dos países europeus. Pelo acordo, cada país do bloco decidirá as condições de admissão em seu território e definirá o número de imigrantes que pode receber, sempre em função do mercado de trabalho. O combate à imigração ilegal também será estimulado.

Analistas e organizações expressaram preocupação quanto ao risco de que o acordo motive ações que comprometam as políticas de asilo político a estrangeiros que fogem de regimes autoritários. Líderes da América Latina e oficiais africanos também criticaram as novas regras contra a imigração ilegal acusando que, com o pacto, o bloco não trata os imigrantes com dignidade.

Desemprego

Também neste sábado, reportagem do “Times” noticiou que o governo do Reino Unido planeja limitar a entrada de imigrantes no país para combater o aumento do desemprego, agravado pela atual crise econômica. A informação foi dada ao jornal pelo secretário de Estado para a Imigração, Phil Woolas.

“Se há pessoas que estão ficando desempregadas, a questão da imigração se torna extremamente espinhosa”, disse Woolas ao jornal. “No passado foi muito fácil entrar neste país, mas vai se tornar mais difícil”, acrescentou.

A taxa de desemprego no Reino Unido alcançou seu nível máximo em oito anos, em 5,7%, no período entre junho e agosto, segundo dados oficiais divulgados na quarta-feira (15).

Recentemente, o governo adotou um sistema que concede pontos para pessoas que estão solicitando imigração, de acordo com seu “valor” para a economia britânica para encorajar a entrada de imigrantes profissionalmente qualificados no país.

A imigração ao Reino Unido cresceu desde o início do governo trabalhista em 1997 e, segundo o “Times” o ingresso de estrangeiros no país deve somar mais de 200 mil pessoas por ano até 2012.

Com agências internacionais

31 Agosto, 2008

Ciganos, indesejáveis na França e na Europa, 01/08/08

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Le Monde, 01/08/08:

Ciganos, indesejáveis na França e na Europa

Anne Rodier e Laetitia Van Eeckhout

Os ciganos, também chamados de “roms” indesejáveis na França como em toda parte na Europa, empurrados de uma favela para outra, são alvo de evacuações regulares, o que permite expulsar progressivamente o conjunto da comunidade. Em Lille, 70 pessoas foram expulsas de seu terreno na última terça-feira (29) ; outras 55 foram expulsas de Saint-Etienne para a Romênia em 17 de julho. E até o fim de agosto cerca de 633 roms serão evacuados do maior acampamento da França, situado em Saint-Ouen (Seine-Saint- Denis), de um terreno onde deverão ser construídos conjuntos habitacionais.

A quarta-feira (30) foi o último dia concedido aos roms de Saint-Ouen para se candidatarem a um projeto de reinserção. O Estado e as coletividades locais vão criar na comuna uma “aldeia de inserção”. Mais de 300 se candidataram, porém não mais de cem deles poderão se instalar. Os serviços sociais explicam que uma aldeia de inserção não pode receber mais de 20 famílias. As outras terão de partir. O subprefeito do distrito de Saint-Denis, Olivier Dubaut, avisa: “Não vamos tolerar acampamentos selvagens”.

Em projetos semelhantes, somente 21 famílias foram escolhidas em Saint-Denis, e 18 em Aubervilliers. “Falta vontade política. Só um apoio financeiro europeu permitiria realizar projetos de maior amplidão”, estima Marie-Louise Mouket, responsável pelo Pact Arim 93. Essa associação de inserção pela moradia foi encarregada pela prefeitura de Saint-Ouen de realizar uma pesquisa social. Ela permitirá que o prefeito julgue, conforme critérios à sua discrição, as famílias que têm “a vontade de se integrar na sociedade francesa”, no plano profissional, escolar e lingüístico. “Os que não correspondem aos critérios terão a obrigação de deixar o território francês”, afirma Dubaut.

Afinal, 400 ciganos de Saint-Ouen estão ameaçados de expulsão e 94 se inscreveram junto aos serviços de imigração (Anaem) para retornar voluntariamente à Romênia. Segundo o Ministério da Imigração, o valor da ajuda para o retorno está mantido em 300 euros por adulto. Mas em Saint-Etienne e em Saint-Ouen os roms afirmam que lhes prometeram apenas 150 euros.

Amostra de saliva

Seja como for, a maioria não quer voltar para a Romênia. “Queremos ficar na França. Quando fecharem o acampamento, iremos para outro lugar, não queremos voltar para a Romênia nunca. O que queremos? Ter o direito de trabalhar aqui”, afirma Sorin Boti, 34 anos, azulejista, que vive no acampamento de Saint-Ouen. Retornando voluntariamente ou não, nada impede os que desejarem pegar mais um ônibus para a França.

Desde que entraram na União Européia, em 1º de janeiro de 2007, os romenos e os búlgaros continuam submetidos a dispositivos especiais em termos de trabalho. Mas eles são cidadãos europeus plenos, que se beneficiam da liberdade de circulação, como lembrou o Conselho de Estado em 19 de maio. Como os outros europeus, eles devem além de três meses de permanência “ou ter um emprego, ou possuir meios suficientes de subsistência”, segundo a circular de 22 de dezembro de 2006, especialmente publicada pelo Ministério do Interior na véspera de sua entrada na União. Caso não cumpram as condições de permanência, romenos e búlgaros podem ser expulsos. Dos 23.186 estrangeiros expulsos em 2007, 2.271 romenos e 810 búlgaros foram devolvidos a seus países, por bem ou à força.

Os meios associativos denunciam regularmente o absurdo dessas expulsões, pois os roms voltam para a França. De 55 pessoas que partiram de Saint-Etienne em 17 de julho, duas já voltaram em duas semanas, afirma George Gunther, responsável pela Rede de Solidariedade com os Roms. Nessa aglomeração, a comunidade rom continua estável há cinco anos, com 250 a 300 pessoas.

Para evitar que eles voltem à França e se beneficiem várias vezes da ajuda de retorno humanitário, a lei de 20 de novembro de 2007 prevê um fichamento biométrico dos beneficiários da ajuda de retorno. O decreto de aplicação ainda está sendo preparado.

Mas na prática o recenseamento começou. Em Saint-Ouen, a pesquisa social – da qual os roms participaram maciçamente – constitui na verdade um fichamento preciso que será enviado à prefeitura: identidade, data de entrada na França, perfil profissional, médico e escolar. O recenseamento é completado pelos dossiês da Anaem, que trabalha em estreita colaboração com a polícia. Em Saint-Etienne, a prefeitura indica claramente que “o objetivo dos controles é registrar as identidades em um arquivo para entregar as OQTF [obrigação de deixar o território francês] em três meses, antes das evacuações”.

Em Alès (Gard), os roms beneficiários da ajuda ao retorno foram convocados pela polícia para tirar impressões digitais, foto e amostra de saliva. “Um caso de proxenetismo envolvia menores, e é nesse âmbito que a autoridade judiciária procedeu à retirada de amostras”, explica um conselheiro de Hortefeux. E este insiste: o fichamento biométrico não será aplicado só aos ciganos. De todo modo, na França, assim como na Itália, o fichamento dos roms começou.

Em Portugal, juiz qualifica ciganos de “pérfidos”

O julgamento provocou um clamor em Portugal. Em uma decisão proferida pelo tribunal de Felgueiras na quarta-feira (30) cinco ciganos condenados a penas de prisão por ter agredido policiais foram qualificados pelo juiz de “pessoas malvistas socialmente, marginais, pérfidos, totalmente dependentes do Estado e que lhe pagam desobedecendo e atentando contra a integridade física e moral de seus agentes”. A juíza explicou que as condições de habitação dos cinco homens eram “ruins, não devido ao espaço físico em si, mas devido ao estilo de vida de sua etnia (pouca higiene)”. Há 50 mil ciganos em Portugal. “Estamos cansados de discriminações”, reagiu a Federação de Associações Ciganas do país.

Os ciganos na Europa

A maior minoria da Europa, os ciganos seriam 7 milhões, originários principalmente da Romênia e dos Bálcãs. Seu número é difícil de definir porque existem poucas estatísticas étnicas. O Conselho da Europa define dados que reúnem os ciganos e a “gente de viagem”. A Romênia contaria com 1,8 milhão de ciganos e a Bulgária, 650 mil. Na França, 400 mil pessoas são recenseadas como “gente de viagem e roms”. Entre elas, os ciganos são muito minoritários.

Os destinos preferidos pelos ciganos fora de seu país de origem são a Itália, com 200 mil roms, e a Espanha, com 700 mil. A Itália deverá fornecer no início de agosto à Comissão Européia um relatório sobre o recenseamento realizado nos acampamentos de Milão, Roma e Nápoles.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

29 Agosto, 2008

Uma marroquina trajando burca tem o pedido de nacionalidade francesa recusado, 12/07/08

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Le Monde, 12/07/08:

Uma marroquina trajando burca tem o pedido de nacionalidade francesa recusado

Stéphanie Le Bars

Seria a burca – a veste feminina mais radical do Islã, que cobre todo o corpo, até mesmo o rosto e os olhos – incompatível com a nacionalidade francesa? Uma marroquina de 32 anos, casada com um francês e mãe de três filhos nascidos na França, acaba de se ter a nacionalidade francesa recusada pelo motivo de que ela “adotou, em nome de uma prática radical da sua religião, um comportamento em sociedade incompatível com os valores essenciais da comunidade francesa, e principalmente o princípio de igualdade dos sexos”.

Pela primeira vez na França, o Conselho de Estado, numa sentença proferida em 27 de junho, levou em consideração o nível de prática religiosa para pronunciar-se a respeito da capacidade de assimilação de uma pessoa estrangeira. Até então, na comunidade muçulmana, apenas pessoas consideradas como envolvidas com movimentos fundamentalistas ou que tivessem feito publicamente declarações favoráveis ao Islã radical se viram recusar a nacionalidade francesa. E, em todos estes casos, nenhuma delas optou por dar prosseguimento ao processo.

No caso de Faiza M., foram a vestimenta que ela costuma usar e a sua vida privada que serviram como argumentos para confirmar a recusa de lhe outorgar nacionalidade francesa. Invocando o princípio de liberdade religiosa garantido pela Constituição; além do fato de que, desde que ela se instalou na França, em 2000, ela “nunca agiu no sentido de questionar os valores fundamentais da República”, Faiza M. havia solicitado ao Conselho de Estado para que este anulasse o decreto de 2005 por meio do qual o seu pedido havia sido recusado, por conta da sua “incapacidade de assimilação”.

Ginecologista homem

A comissária do governo (encarregada de dar um parecer jurídico), Emmanuelle Prada-Bordenave, insistiu nas circunstâncias nas quais foram realizadas as entrevistas com o casal, e que foram conduzidas por profissionais dos serviços sociais e da polícia. Em três oportunidades, Faiza M. teria se apresentado “coberta com a veste das mulheres da península arábica, que incluía um vestido longo caindo até os pés, um véu ocultando seus cabelos, a testa e o queixo, além de uma peça de tecido que escondia seu rosto e deixava os olhos aparecerem apenas através de uma fresta”.

Os cônjuges reconheceram “espontaneamente” serem seguidores do salafismo. Esta vertente do Islã, que preconiza uma leitura literal e rigorista do Alcorão, se inspira no modo de vida dos primeiros fiéis do profeta Maomé. Faiza M. afirmou que ela não trajava o véu quando vivia no Marrocos e acrescentou que ela “só resolveu adotar este traje depois da sua chegada à França, atendendo a um pedido do seu marido, e que ela o utiliza muito mais por hábito do que por convicção”.

“Segundo as suas próprias declarações”, sublinhou a comissária do governo, “ela leva uma vida quase reclusa e praticamente cortada da sociedade francesa. Ela não tem idéia alguma a respeito do laicismo ou do direito de voto. Ela vive numa atitude de submissão total aos homens da sua família”. Faiza M. parece “considerar isso como normal e a própria idéia de contestar esta submissão não lhe ocorre nem de longe”, acrescentou a comissária Prada-Bordenave, concluindo que estas declarações são “reveladoras da inexistência de qualquer vontade da sua parte de adotar certos valores fundamentais da sociedade francesa”.

Paralelamente, apurou-se que Faiza M. “fala bem em francês”, um critério que costuma ser importante na decisão de se atribuir ou não a nacionalidade, e que, durante as suas gravidezes, ela foi atendida por um ginecologista homem.

Esta decisão, que está sendo anunciada algumas semanas depois da anulação de um casamento entre dois cônjuges muçulmanos, pelo motivo de que a mulher havia mentido a respeito da sua virgindade, reflete o surgimento na sociedade francesa de questões vinculadas aos particularismos religiosos e culturais.

“Este caso demonstra que o direito está sendo chamado cada vez mais a pronunciar-se a respeito dos conflitos de valores que o Islã suscita em nossa sociedade”, constata Didier Leschi, um antigo diretor do departamento dos cultos no ministério do Interior, especialista no laicismo. Faiza M., que não tem nenhuma possibilidade de recorrer da decisão, poderá, segundo os juristas, apresentar um novo pedido tão logo ela terá provado que “abraçou para valer os valores da República”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Os casamentos entre franceses e estrangeiros sofrem restrições crescentes, 17/07/08

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Le Monde, 17/07/08:

Os casamentos entre franceses e estrangeiros sofrem restrições crescentes

Laetitia Van Eeckhout

Contas de telefone, e-mails, fotos. . . Ela “entregou tudo” o que dizia respeito à sua vida. Mas nem a comissão de recursos contra os pareceres negativos para a atribuição de vistos, nem o Conselho de Estado, que ela acionou por meio de uma medida cautelar, acolheram favoravelmente seus argumentos. Casados desde janeiro, Marie e Yassir, 25 e 24 anos, compartilham desde então a sua vida cotidiana por meio de Webcams.

Em Fez, no Marrocos, Yassir continua aguardando em vão que o consulado francês lhe conceda um visto para retornar para a França, onde ele pretende se instalar com a sua mulher. Eles se conheceram em 2004, em Dijon (centro-leste) , onde ambos seguiam seus estudos. No final de 2006, a administração recusou-se a renovar a autorização de permanência no território de Yassir. Contudo, eles já eram legalmente casados e Yassir havia recebido uma promessa de contratação.

Em vez de permanecer na França em situação irregular, Yassir optou por retornar ao seu país, para “dar prosseguimento às diligências administrativas, dentro das formas da lei, no Marrocos”, e desta forma, “colocar todas as chances do [seu] lado”. Desde então, ele continua aguardando. Tomado por um sentimento de “grande injustiça”, ele acha a situação “incompreensível”. Isso porque “nós estamos fazendo tudo dentro das regras, nós temos um verdadeiro projeto para o futuro…” A sua certidão de casamento, no Marrocos, foi transcrita para o estado civil francês.

A situação de Marie e Yassir não é um caso isolado. Para muitos casais “mistos”, o casamento tornou-se um percurso do combatente. Uma realidade que conduziu, em junho de 2007, à criação, em Montpellier, da organização “Les amoureux au ban public” (“Os apaixonados diante do banimento público”). No espaço de um ano, este movimento implantou-se em mais de vinte cidades e reuniu 2.000 casais de todos os meios e de todas as origens. Eles estão confrontados a leis cada vez mais estritas e a práticas administrativas kafkianas, em nome da luta contra os casamentos de fachada e do controle da imigração familiar. Na quarta-feira (16) esses casais lançaram uma campanha de opinião, baseada numa pauta de dez reivindicações, para que o seu direito de viverem livremente seja respeitado.

“A entrega de um visto para um (a) estrangeiro (a), destinada a permitir que ele (a) se case na França com uma pessoa francesa é muito excepcional. Na imensa maioria dos casos, o visto é negado e os casais são obrigados quer a se casarem no exterior, quer a solicitarem um visto de turismo para o cônjuge não francês”, observa Nicolas Ferran de la Cimade, um dos fundadores do movimento.

No exterior, é preciso obter previamente do consulado da França um certificado de capacidade para o casamento, e então, uma vez o casamento celebrado, solicitar a sua transcrição junto ao estado civil francês. O processo pode demorar vários meses. Na França, enquanto os documentos não estiverem prontos, o casal corre o risco de viver por um tempo na ilegalidade e de ser submetido a um inquérito. O Conselho Constitucional lembrou que a irregularidade da permanência no território não constitui um indício suficiente para se suspeitar de uma falta de sinceridade e não deve ser um entrave para a liberdade de casamento. Contudo, alguns eleitos locais andaram acionando sistematicamente o procurador, quer o cônjuge tenha ou não a sua situação regularizada.

Ouafa, uma marroquina, trabalha na França desde 2006 dentro das formas da lei, como secretária tradutora. Ela casou-se em janeiro com um pesquisador do CNRS (o mais importante organismo científico francês). Ela não gostou nem um pouco desta “intrusão na intimidade” do seu casal antes do seu casamento: “Qual é o nosso delito? O de nos amarmos?”

“Em 1981, a obrigação para os estrangeiros de solicitarem a autorização do prefeito para poderem se casar foi suprimida. Mas”, comenta Nicolas Ferran, “esta autorização foi de fato restabelecida: o procurador simplesmente substituiu o prefeito”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

26 Agosto, 2008

A África refletida no espelho da França, 01/12/07

Folha de São Paulo, 01/12/07:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0112200718.htm

A África refletida no espelho da França

PHILIPPE BERNARD
DO “MONDE”

O escândalo da ONG Arca de Zoé [que no mês passado tentou levar para a adoção na França 103 crianças chadianas apresentadas como "órfãos de Darfur"] ilustrou plenamente, a ponto de torná-la caricata, a visão da África que impregna a sociedade francesa.

Como um espelho que deforma os objetos que reflete, a empreitada de Eric Breteau [diretor da ONG] e a disposição imediata de Nicolas Sarkozy em querer arrancar os acusados das mãos da Justiça chadiana refletem a hipocrisia de nossas relações com o continente negro. Em segundo plano, o caso traduz a batalha ideológica travada em torno de Darfur.

Como nos tempos das colônias, a África refletida pela Zoé é um continente cuja opinião não interessa em tempos normais -é demasiado desesperador e complicado-, mas que regularmente provoca manifestações de emoção. Vem daí a tentação de preparar um “golpe”: buscar crianças apresentadas como sendo vítimas de guerra, visando denunciar a suposta indiferença da comunidade internacional em relação ao conflito de Darfur.

Terra de ninguém

Isso supõe que se veja a África como uma espécie de terra de ninguém onde os ocidentais podem agir como bem entendem, inclusive desrespeitando as regras que eles mesmos alegam promover. Torna-se possível então tomar crianças chadianas por crianças sudanesas de Darfur, filhos de famílias numerosas por órfãos, um país independente por uma zona sem leis. Como no imaginário colonial, os negros seriam crianças grandes, um pouco irresponsáveis, pelos quais se poderia fazer o bem mesmo que eles não o queiram, quando necessário lhes dando uma lição.

Em relação às crianças e suas migrações, o caso põe em evidência nossas próprias contradições. A sociedade francesa pode exigir exames de DNA para comprovar a filiação de crianças negras imigradas, ao mesmo tempo em que alguns de seus membros buscam junto a chefes de povoados outras crianças negras, sem preocupar-se com a existência ou não de seus pais.

Como se surpreender com o fato de tal cenário, para os africanos, evocar -mesmo que de maneira abusiva- o tráfico de negros, e de que seja explorado em detrimento da França? A “África de Zoé” simboliza também nossa dificuldade em compreender realmente o que se passa ao sul do Saara. Em admitir concretamente que o leste do Chade vive parcialmente em outro século. Que, como nos livros de Hugo ou Dickens, alguns pais são tão pobres que talvez sonhem em entregar seu filho, em troca de uma remuneração, a estranhos que lhe prometam um futuro melhor.

Hipocrisia

A incompreensão é reforçada pela hipocrisia de nosso diálogo com os africanos: o sentimento de culpa pós-colonial do qual esses últimos sabem abusar, os interesses econômicos e estratégicos, tudo isso impede a franqueza na relação bilateral. Nisso, a odisséia fracassada da Arca de Zoé aparece como revelador cruel.

A França ajudou Idriss Déby a chegar ao poder em 1990. Ela mantém em Ndjamena uma base militar com 1.100 homens que defende contra rebeliões o regime de Déby, em que a democracia tem pouco lugar. Na teoria, a França apóia um Estado soberano, porém frágil.

Mas a pouca confiança que a França sente na Justiça chadiana se manifesta quando franceses correm o risco de receber penas pesadas dessa Justiça. “Vou buscar os que ficaram lá, não importa o que eles tenham feito”, prometeu Sarkozy na época, provocando escândalo entre os chadianos.

A última luz lançada pelo caso todo diz respeito à análise do conflito em Darfur. Eric Breteau se inspirou no discurso do coletivo Urgence Darfur, que apelou para que se “passe à ação”. Antes de sua entrada no governo, Bernard Kouchner era uma das personalidades que transmitiram essa mensagem, ao lado de Bernard-Henri Lévy. Esse apelo defende a imposição de uma intervenção internacional no Sudão.

Diante dele, as organizações humanitárias como a Médicos Sem Fronteiras, do qual Ronny Brauman é ex-presidente, ou a Médicos do Mundo, cujas equipes trabalham em campo, rejeitam o que vêem como uma estratégia militar perigosa “à moda do Iraque”. Em resposta, os defensores do Urgence Darfur afirmam que esses ativistas humanitários têm dificuldade em reconhecer a gravidade de um conflito em que o papel dos “bandidos” não seja representado pelos EUA. “Pró-americanos” contra “antiimperialistas”, defensores da ação exclusivamente humanitária contra partidários de uma intervenção política ou mesmo militar, auxiliada pelos humanitários. Assim, a Arca de Zoé também veio reativar essa querela antiga entre “French doctors”.

Tradução de CLARA ALLAIN

Changer le regard sur l’immigration, 06/10/07

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Le Monde, 06/10/07:

Changer le regard sur l’immigration

Jacques Toubon, ancien ministre et président de la Cité nationale de l’immigration

Conçue sous la gauche, décidée par Jacques Chirac, la Cité nationale de l’histoire de l’immigration ouvre enfin ses portes. Comment expliquer que ce projet ait mis tant de temps à se concrétiser et ait été finalement réalisé par la droite ? Entre le moment où la décision de créer la Cité a été prise – au début du quinquennat de Jacques Chirac -, et celui de son ouverture, il s’est seulement déroulé quatre ans et demi. Une période relativement courte, finalement, pour une institution inédite. C’est la maturation de l’idée qui a été longue : lancée il y a vingt ans par des historiens et des militants, elle a effectivement connu un sort indifférent pendant les années 1980-1990.

Durant toute cette période, l’accent était davantage mis sur la différenciation, le droit à la différence, que sur la démarche d’intégration, qui caractérise le modèle français. Le meilleur exemple est la proposition faite par Lionel Jospin, ministre de l’éducation, de développer un enseignement des langues d’origine. Cette idée était intellectuellement contraire à celle de raconter une histoire de la France reconnaissant la place déterminante de l’immigration dans la construction collective. C’est à partir de la campagne présidentielle de 2002 et la réélection de Jacques Chirac que l’intégration a été remise à l’honneur, sur l’idée que l’immigration était un phénomène durable et incontournable, qu’il fallait travailler sur l’intégration de ceux qui arrivent comme de ceux qui sont déjà là, que notre société était une société de diversité, et que cette diversité devait être prise en compte sans que notre modèle d’intégration, universaliste et égalitaire, ne soit remis en cause.

La gauche, si elle avait été au pouvoir, aurait-elle mené à bien ce projet ? Je n’en suis pas si sûr. Car il y a encore à gauche une confusion entre esclavage, colonisation et immigration. Et cette confusion est un obstacle à la réalisation d’un tel projet.

Ce projet est-il encore porté, soutenu par le pouvoir actuel ? Le jour de son ouverture, la Cité ne sera pas officiellement inaugurée, ni par Nicolas Sarkozy ni par le ministre de l’immigration, Brice Hortefeux.

Ma préoccupation, ma priorité est d’ouvrir la Cité, de la faire vivre. En faire un événement politique m’importe peu. Mon souhait est que la Cité accrédite son propre message et qu’on ne lui en impose pas un. L’histoire a une force en elle-même qu’il faut absolument protéger. Ce faisant, quelle que soit l’apparence du discours politique aujourd’hui, je ne pense pas qu’ait disparu cette idée que la France est une société de diversité. Il est certain que le discours actuel insiste davantage sur l’idée de fermeture que sur celle d’ouverture. A entendre Nicolas Sarkozy devant les Nations unies, il semble néanmoins qu’il y ait davantage une continuité qu’une rupture avec les années Chirac, sur tous ces sujets concernant les valeurs fondamentales. En tout cas, depuis l’installation du nouveau gouvernement, je n’ai rencontré aucune difficulté, ni explicitement ni implicitement.

N’est-il cependant pas surprenant que l’Institut d’études sur l’immigration et l’intégration soit créé au sein du Haut Conseil à l’intégration au moment où on lance la Cité ?

Ce n’est pas très judicieux. Mais cela ne change en rien notre vocation et notre message. La Cité travaille sur une matière beaucoup plus précise : les faits historiques. Ce nouvel institut a, lui, plus vocation, pour ce que j’en sais, à travailler sur la philosophie et les idées.

N’y a-t-il pas contradiction entre l’ouverture de ce musée, qui signe la reconnaissance de l’apport de l’immigration dans l’histoire, et la politique actuelle, qui semble davantage stigmatiser l’immigré qu’en souligner l’apport ?

Très franchement, non. Je ne crois pas que la politique de Nicolas Sarkozy et de ce gouvernement rompe avec les principes républicains, en particulier avec le principe d’intégration. L’identité française qui est aujourd’hui mise en avant est une identité non pas essentielle, mais une identité construite. L’identité que nous présentons à la Cité est celle d’une France, d’une civilisation qui a fait son miel de cultures, de religions, de modes de vie différents, et ce depuis au moins deux siècles. Ainsi, je ne pense pas du tout que notre projet soit mis en cause par la mise en avant de l’identité française. C’est en ce sens que j’ai toujours dit aux historiens travaillant avec moi qu’il ne fallait pas s’arrêter aux mots.

Leur démission au printemps pour dénoncer l’amalgame entre immigration et identité nationale vous a-t-elle surpris ?

Je comprends que l’on puisse réagir à la conjonction, au “choc” des mots immigration et identité nationale. Car cette collision peut effectivement faire référence à des périodes historiques et à des idéologies d’exclusion. Leur réaction s’explique, mais elle est politique. La meilleure réponse qui soit à cette collision des mots, c’est la Cité elle-même, car elle repose sur un ensemble de faits historiques, scientifiques. La Cité apporte au débat, mais elle n’est pas dans le débat politique.

Ce qu’elle symbolise n’est-il pas toutefois contradictoire avec le souhait du chef de l’Etat d’instaurer des quotas d’entrées par nationalité ?

Je ne crois pas. Je ne récuse pas, sur le principe, l’idée de contingents professionnels et régionaux. Je préfère le terme de contingent à celui de quotas, qui sous-tend une idée de proportion. Simplement, une telle politique ne peut être conçue et conduite au niveau d’un seul Etat. La construction d’une politique européenne de l’immigration légale sera un des thèmes de la future présidence française de l’Union européenne. Dans ce cadre-là, au regard des besoins professionnels, mais aussi à l’aune des relations qu’entretient l’Europe avec telle ou telle région du monde, pourraient être définis des contingents, comme le fait le Canada de manière ouverte et démocratique.

N’est-il pas de la responsabilité d’organisations comme l’Union européenne de définir à l’échelle d’un continent ses relations avec le monde, de se comporter en acteur de la mondialisation ? Organiser les flux migratoires, c’est reprendre en main son propre sort. En matière d’immigration aussi, l’Europe doit être acteur. J’ajoute que travailler dans une telle perspective permet de restituer les mouvements migratoires, de voir par exemple que le mouvement de migrants entre l’Afrique du Nord et l’Europe est bien moindre que celui existant entre le Mexique et les Etats-Unis.

Que pensez-vous de l’idée de recourir à des tests ADN pour les candidats au regroupement familial ?

Mieux vaudrait en discuter dans un débat sur la bioéthique que lorsque l’on parle d’immigration. Mais il est incontestable qu’aujourd’hui faire famille ne signifie pas simplement engendrer. Et, au-delà des principes, il ne faudrait pas que cela devienne une condition supplémentaire au regroupement familial, supplémentaire et discriminatoire. Une telle disposition pourrait être censurée par le Conseil constitutionnel, non pas tant pour des questions de principe, car après tout juridiquement il est toujours possible d’étendre l’article 16 du code civil, mais parce que cela apparaîtra comme une entrave au regroupement familial, non conforme aux principes définis en 1979 par le Conseil d’Etat.

Etablissement public, la Cité ne risque-t-elle pas de livrer une lecture partielle de l’histoire de l’immigration ?

Non, parce que nous sommes partis du travail des historiens. Tous les textes sont de leur plume. Et autant, sur l’histoire de la colonisation, des divergences existent, autant, sur l’histoire de l’immigration, les chercheurs s’accordent sur l’essentiel. La Cité est une institution culturelle éducative scientifique et civique, au sens où son rôle est d’éveiller la conscience politique des gens. Non par un discours politique mais par la connaissance.

La mission de la Cité est de changer le regard sur l’immigration, d’en faire une question rationnelle et non plus fantasmatique. La question de l’immigration sera toujours débattue mais nous avons besoin d’un débat plus serein.

Que peut être cependant un musée sur l’histoire de l’immigration sans le fleuron des universitaires spécialistes du sujet ?

Il ne faut pas se leurrer. D’un côté, les historiens mènent l’action en tant que citoyens et ils en ont le droit. Et de l’autre, ils continuent à travailler avec nous. Ils sont à la base de toutes les activités de la Cité. La Cité travaille et continuera à travailler avec le fleuron des universitaires. D’autant qu’à partir de ce fleuron, une des missions de la Cité est d’essaimer, de susciter des initiatives de collectivités locales, de jeunes chercheurs, d’associations, et de leur donner du sens. L’exposition permanente que nous ouvrons le 10 octobre n’est qu’une goutte d’eau au regard du travail qu’il y a à faire, notamment auprès des millions d’élèves et d’étudiants.

Vous êtes-vous inspiré des autres musées du même type existant dans le monde, comme celui d’Ellis Island à New York ?

De mes visites d’Ellis Island ou du Musée de la civilisation à Québec, pour ne citer qu’eux, j’ai tiré des enseignements sur la scénographie, la muséographie, et notamment l’importance de l’audiovisuel. Ce qui m’a paru essentiel, c’est l’idée de faire du visiteur un “fréquenteur”. Des lieux de ce type ne sont pas simplement des musées que l’on visite pour voir des choses, mais ce sont des lieux utiles, répondant à une demande, à un besoin. Des lieux où l’on revient, comme on “fréquente” le café du coin.

Ancien ministre, Jacques Toubon est président de la Cité nationale de l’histoire de l’immigration

Marseille’s Ethnic Bouillabaisse, 12/07

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Smithsonian Magazine, dezembro 2007:

http://www.smithsonianmag.com/travel/marseille-200712.html

Marseille’s Ethnic Bouillabaisse

Some view Europe’s most diverse city as a laboratory of the continent’s future

By Andrew Purvis

Photographs by Kate Brooks

One morning in early November 2005, Kader Tighilt turned on the radio as he drove to work. The news reported that 14 cars had burned overnight in Marseille’s northern suburbs. “They’ve done it,” Tighilt said out loud. “The bastards!” It seemed his worst fears had been confirmed: riots, which had first broken out in the suburbs of Paris on October 27, had now spread to the port city and one of the largest immigrant communities in France. For the previous two weeks, Tighilt, his fellow social workers and community volunteers had been working feverishly to prevent this very thing from happening, fanning out across the city to places where young people gathered to spread the word that violence was folly.

“We were worried that [our youths] would try to compete with Paris,” says Tighilt, 45, who grew up in an Algerian family in a shantytown on the outskirts of the city. He was not alone. Marseille is not only arguably Europe’s most ethnically diverse city, but also has as high a proportion of Muslims as any place in Western Europe. It suffers from high unemployment and the usual brew of urban problems. “We were waiting for the place to explode,” one city official confided later.

But it didn’t. Tighilt called a friend on the police force that morning, only to discover that the radio report had been exaggerated: yes, 14 cars had burned, but not in the Marseille suburbs alone—in the entire department, an area with a population of nearly two million people. By Paris’ standards, the incident was trifling. And that was about it. For three weeks, riot police would fight running battles in the French capital, in Lyon, Strasbourg and elsewhere; dozens of shops, schools and businesses would be ransacked, thousands of cars torched and 3,000 rioters arrested. Yet Marseille, with a population of slightly more than 800,000, remained relatively quiet.

Despite being home to sizable Jewish and Muslim populations, Marseille had largely avoided the worst of the anti-Semitic attacks that swept France in 2002 and 2003 in the wake of the second intifada (Palestinian uprising) in Israel. And the 2006 Israeli incursion against Hezbollah in Lebanon produced anti-Israeli demonstrations in the city but no violence. At a time when disputes over the role of Islam in Western society are dividing Europe, Marseille has recently approved construction of a huge new mosque on a hill overlooking the harbor, setting aside a $2.6 million plot of city-owned land for the project. “If France is a very racist country,” says Susanne Stemmler, a French studies expert at the Center for Metropolitan Studies in Berlin who has focused on youth culture in the port city, “Marseille is its liberated zone.”

It seems an unlikely model. The city has not historically enjoyed a reputation for serenity. For Americans, at least, it may best be remembered as a setting for The French Connection, the 1971 drug smuggling thriller starring Gene Hackman. French television series depict the city as a seedy, rebellious enclave lacking in proper Gallic restraint. Yet its calm in the midst of a crisis has caused sociologists and politicians to take a fresh look. Across Europe, immigrant populations are mushrooming. There were fewer than one million Muslims in Western Europe after World War II before guest-worker programs fueled immigration. Today there are 15 million Muslims, five million in France alone. That change has exacerbated tensions between communities and local governments struggling to cope with the newcomers. Could Marseille, gritty yet forward-thinking, and as the French say, convivial, hold a key to Europe’s future?

These questions come at a time when Marseille’s image is already undergoing an upgrade. The world of drug lords and crumbling wharves has been giving way, block by block, to tourists and trendy boutiques. The French government has pledged more than half a billion dollars to redevelop the waterfront. Cruise ships brought 460,000 visitors this year, up from 19,000 a decade ago. Hotel capacity is expected to increase 50 percent in the next four years. Once merely the jumping-off point for tourists heading into Provence, the old port city is fast becoming a destination in itself. “Marseille is no longer the city of The French Connection,” Thomas Verdon, the city’s director of tourism, assured me. “It’s a melting pot of civilizations.”

Fifty years ago, from Alexandria to Beirut to Algeria’s Oran, multicultural cities were the norm on the Mediterranean. Today, according to French sociologist Jean Viard, Marseille is the only one remaining. As such, he says, it represents a kind of “laboratory for an increasingly heterogeneous Europe.” It is, he adds, “a city of the past—and of the future.”

When I visited Marseille, in the waning days of a Provençal summer, a “three-masted” tall ship from a Colombian naval academy was moored in the inner harbor, sporting a display of flags from around the world and blasting samba music. At first glance, Marseille, with its jumble of white and brown buildings crowded around a narrow harbor, seems to resemble other port towns along France’s Mediterranean coast. But less than half a mile from the historic center of the city lies the hectic, crowded quarter of Noailles, where immigrants from Morocco or Algeria, Senegal or the Indian Ocean’s Comoro Islands haggle over halal (the Muslim version of kosher) meats as well as pastries and used clothing. Impromptu flea markets blanket sidewalks and back alleys. Just off the rue des Dominicaines, one of the city’s older avenues, across from a shuttered 17th-century church, Muslim men kneel toward Mecca in a vacant shop lit by a single fluorescent bulb.

That night, the Colombian cadets were throwing a party. Thousands of Marseillais from the Arab world, as well as Armenians, Senegalese, Comorans and native French, descended on the Vieux Port to saunter along the waterfront or stop for a pastis (anise-flavored aperitif) at a local café. Some danced on the ship’s deck. A shipboard band, not far from my hotel, played on until early morning. Then, as the first Vespas began roaring around the port-side boulevard at dawn, a lone trumpeter outside my window played “La Marseillaise.” The national anthem, composed during the French Revolution, took its name from the city because it was popularized by local militias who sang the call to arms as they marched on Paris.

Of the city’s 800,000 souls, some 200,000 are Muslim; 80,000 are Armenian Orthodox. There are nearly 80,000 Jews, the third-largest population in Europe, as well as 3,000 Buddhists. Marseille is home to more Comorans (70,000) than any other city but Moroni, the capital of the East African island nation. Marseille has 68 Muslim prayer rooms, 41 synagogues and 29 Jewish schools, as well as an assortment of Buddhist temples.

“What makes Marseille different,” said Clément Yana, an oral surgeon who is a leader of the city’s Jewish community, “is the will not to be provoked, for example, by the intifada in Israel—not to let the situation get out of control. We could either panic, and say ‘Look, there is anti-Semitism!’ or we could get out in the communities and work.” Several years ago, he said, when a synagogue on the outskirts of Marseille was burned to the ground, Jewish parents ordered their kids to stay home and canceled a series of soccer matches scheduled in Arab neighborhoods. Kader Tighilt (who is Muslim and heads a mentoring association, Future Generations) immediately telephoned Yana. Virtually overnight, the two men organized a tournament that would include both Muslim and Jewish players. They initially called the games, now an annual affair, the “tournament of peace and brotherhood.”

A spirit of cooperation, therefore, was already well established at the moment in 2005 when community leaders feared that Arab neighborhoods were about to erupt. Volunteers and staffers from a variety of organizations, including Future Generations, fanned out across Marseille and its northern suburbs attempting to put into context the then nonstop TV coverage of riots erupting in Paris and elsewhere in France. “We told them ‘In Paris they are stupid’; ‘They are burning their neighbors’ cars’; ‘Don’t fall into that trap,’” Tighilt says. “I didn’t want immigrant neighborhoods to be locked up and ghettoized,” he recalled. “We have a choice.” Either “we surrender these places to the law of the jungle,” or “we take it upon ourselves to become masters of our own neighborhoods.”

Nassera Benmarnia founded the Union of Muslim Families in 1996, when she concluded that her children risked losing touch with their roots. At her headquarters, I found several women baking bread as they counseled elderly clients on housing and health care. Benmarnia’s aim, she says, is to “normalize” the presence of the Muslim community in the city. In 1998, to observe the holiday Eid al-Adha (marking the end of the pilgrimage season to Mecca), she organized a citywide party she dubbed Eid-in-the-City, to which she invited non-Muslims as well as Muslims, with dancing, music and feasting. Each year since, the celebration has grown. Last year, she even invited a group of pieds-noirs, descendants of the French who had colonized Arab North Africa and are believed by some to be particularly hostile to Arab immigrants. “Yes, they were surprised!” she says. “But they enjoyed it!” One-third of the partygoers turned out to be Christians, Jews or other non-Muslims.

Though a devout Catholic, Marseille’s mayor, Jean-Claude Gaudin, prides himself on close ties to Jewish and Muslim communities. Since his election in 1995, he has presided over Marseille-Espérance, or Marseille-Hope, a consortium of prominent religious leaders: imams, rabbis, priests. At times of heightened global tension—during the 2003 invasion of Iraq, for example, or after the 9/11 attacks—the group meets to talk things over. The mayor has even approved construction, by the Muslim community, of a new Grand Mosque, expected to begin next year on two acres of land set aside by the city in the northern neighborhood of St. Louis overlooking the port. Rabbi Charles Bismuth, a member of Marseille-Espérance, supports the project as well. “I say let’s do it!” he says. “We don’t oppose each other. We are all heading in the same direction. That is our message and that is the secret of Marseille.”

It’s not the only secret: the unusual feel of the downtown, where immigrant communities are only a stone’s throw from the historic center, is another. In Paris, most notably, immigrants tend not to live in central neighborhoods; instead most are in housing projects in the banlieues, or suburbs, leaving the heart of the city to the wealthy and the tourists. In Marseille, low-rent apartment buildings, festooned with laundry, rise only a few dozen yards from the old city center. There are historical reasons for this: immigrants settled not far from where they arrived. “In Paris, if you come from the banlieues, to walk in the Marais or on the Champs-Élysées, you feel like a foreigner,” says Stemmler. “In Marseille, [immigrants] are already in the center. It is their home.” Sociologist Viard told me, “One of the reasons you burn cars is in order to be seen. But in Marseille, kids don’t need to burn cars. Everybody already knows they are there.”

Ethnic integration is mirrored in the economy, where Marseille’s immigrants find more opportunity than in other parts of France. Joblessness in immigrant neighborhoods may be high, but it’s not at the levels seen in Paris banlieues, for example. And the numbers are improving. In the past decade, a program that provides tax breaks to companies that hire locally is credited with reducing unemployment from 36 percent to 16 percent in two of Marseille’s poorest immigrant neighborhoods.

But the most obvious distinction between Marseille and other French cities is the way in which Marseillais see themselves. “We are Marseillais first, and French second,” a musician told me. That unassailable sense of belonging pervades everything from music to sports. Take, for example, attitudes toward the soccer team, Olympique de Marseille, or OM. Even by French standards, Marseillais are soccer fanatics. Local stars, including Zinedine Zidane, the son of Algerian parents who learned to play on the city’s fields, are minor deities. “The club is a religion for us,” says local sports reporter Francis Michaut. “Everything you see in the city develops from this attitude.” The team, he adds, has long recruited many of its players from Africa and the Arab world. “People don’t think about the color of the skin. They think about the club,” says Michaut. Éric DiMéco, a former soccer star who serves as deputy mayor, told me that “people here live for the team” and the fans’ camaraderie extends to kids who might otherwise be out burning cars. When English hooligans began looting the downtown following a World Cup match here in 1998, hundreds of Arab teenagers streamed down to the Vieux Port on Vespas and old Citroën flatbeds—to battle the invaders alongside French riot police.

Some 2,600 years ago, legend has it, a Greek mariner from Asia Minor, named Protis, landed in the inlet that today forms the old harbor. He promptly fell in love with a Ligurian princess, Gyptis; together they founded their city, Massalia. It became one of the ancient world’s great trading centers, trafficking in wine and slaves. Marseille survived as an autonomous republic until the 13th century, when it was conquered by the Count of Anjou and came under French rule.

For centuries, the city has lured merchants, missionaries and adventurers from across the Middle East, Europe and Africa to its shores. Marseille served, too, as a safe haven, providing shelter for refugees—from Jews forced out of Spain in 1492 during the Spanish Inquisition to Armenians who survived Ottoman massacres early in the 20th century.

But the largest influx began when France’s far-flung French colonies declared independence. Marseille had been the French Empire’s commercial and administrative gateway. In the 1960s and ’70s, hundreds of thousands of economic migrants, as well as the pieds-noirs, flocked to France, many settling in the area around Marseille. Amid ongoing economic and political turmoil in the Arab world, the pattern has continued.

The coming of independence dealt a blow to Marseille’s economy. Previously, the city had flourished on trade with its African and Asian colonies, mainly in raw materials such as sugar, but there was relatively little manufacturing. “Marseille profited from trade with the colonies,” says Viard, “but received no knowledge.” Since the mid-1980s, the city has been reinventing itself as a center for higher education, technological innovation and tourism—the “California” model, as one economist described it. Along the waterfront, 19th-century warehouses, gutted and refitted, today provide luxury office and living space. A silo, once used to store sugar offloaded from ships, has been transformed into a concert hall. The old Saint-Charles train station has just been completely renovated, to the tune of $280 million.

While Marseille may lack the jewel box perfection of Nice, a two-hour drive away, it boasts a spectacular setting—some 20 beaches; picturesque islands; and the famous calanques, or fiords, where rugged coves and scuba-diving waters are just minutes away. And for anyone willing to explore the city on foot, it yields unexpected treasures. From the top of Notre-Dame-de-la-Garde, the 19th-century basilica, views of the city’s whitewashed neighborhoods, islands and the Estaque coast stretch to the west.

Back in the city center, Le Panier (panier means basket, perhaps connected to the fact that the ancient Greeks’ marketplace thrived here) has preserved a quiet charm, with little traffic and coffeehouses where one can snack on a bar of dark chocolate, a local specialty. In the heart of the district, a complex of recently restored 17th-century buildings, La Vieille Charité, houses world-class collections of Egyptian and African artifacts. The extensive holdings, from 21st dynasty sarcophagi to 20th-century central African masks, contain treasures brought back over the centuries from the outposts of the empire.

The port is rightly celebrated, too, for its traditional dishes, particularly bouillabaisse, the elaborate fish soup incorporating, among other elements, whitefish, mussels, eel, saffron, thyme, tomato and white wine. Back in the 1950s, a young Julia Child researched part of her best-selling 1961 cookbook, Mastering the Art of French Cooking, in fish markets along the Vieux Port. She compiled her recipes in a tiny apartment overlooking the inner harbor. The plain-spoken Child may have called the dish “a fish chowder,” but the surging popularity of bouillabaisse today means that in one of Marseille’s upscale waterfront restaurants, a serving for two with wine may set one back $250.

On any given evening, in clubs that fringe La Plaine, a district of bars and nightclubs about a 15-minute walk up the hill from the Vieux Port, global musical styles, from reggae to rap to jazz to West African rap-fusion, pound into the night. As I strolled along darkened cobblestone streets not long ago, I passed a salsa club and a Congolese band playing in a Jamaican style known as rub-a-dub. On the outside wall of a bar, a mural showed a golden-domed cathedral set against a fantastical skyline of mosques—an idealized vision of a multicultural city on a cobalt blue sea that bears a striking resemblance to Marseille itself.

Not long before I left the city, I met with Manu Theron, a percussionist and vocalist who leads a band called Cor de La Plana. Although he was born in the city, Theron spent part of his childhood in Algeria; there, in the 1990s, he played in Arab cabarets, clubs he likens to saloons in the Wild West, complete with whiskey, pianos and prostitutes. Also around that time, he began singing in Occitan, the centuries-old language related to French and Catalan, once spoken widely in the region. As a youngster in Marseille, he had sometimes heard Occitan. “Singing this language,” he says, “is very important to remind people of where they come from.” Nor does it bother him that audiences don’t understand his lyrics. As a friend puts it, “We don’t know what he is singing about, but we like it anyway.” The same might be said of Marseille: in all its diversity, the city may be difficult to comprehend—but somehow, it works.

Writer Andrew Purvis, the bureau chief for Time in Berlin, has reported extensively on European and African immigration issues. Photographer Kate Brooks is based in Beirut, Lebanon.

Books

The Rough Guide to Provence & the Côte d’Azur, Rough Guides, 2007
My Town: Ford p. 96 none, per AM
Presence of Mind, p. 102
A Farewell to Alms: A Brief Economic History of the World by Gregory Clark, Princeton University Press, 2007

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