MIGREPI

15 Março, 2009

Crise afunda Dubai na decadência, em 15/02/09

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O Estado de São Paulo, 15/02/09:

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090215/not_imp324115,0.php

Crise afunda Dubai na decadência

Cidade-símbolo do capitalismo árabe está à beira de tornar-se uma cidade fantasma

Robert Worth, NYT, DUBAI

Sofia, uma francesa de 34 anos, mudou-se para cá há um ano para assumir um emprego em publicidade. Confiante na economia exuberante de Dubai, comprou um apartamento por quase US$ 300 mil com uma hipoteca de 15 anos.

Agora, como muitos trabalhadores estrangeiros que compõem quase 90% da população local, ela foi dispensada e enfrenta a perspectiva de ser obrigada a abandonar o Golfo Pérsico – ou pior.

“Estou realmente assustada com o que poderia acontecer, porque comprei um imóvel aqui”, disse Sofia, que pediu para seu sobrenome não ser divulgado pois está procurando um novo emprego. “Se não conseguir pagar, disseram-me que poderia acabar na prisão para devedores.”

Com a economia de Dubai em queda livre, os jornais noticiaram que mais de 3 mil carros estão abandonados no estacionamento do aeroporto de Dubai, deixados por estrangeiros endividados em fuga (que poderiam, de fato, ser presos se não pagassem suas contas). Comenta-se que alguns têm cartões de crédito estourados e notas de desculpa pregados com adesivo no para-brisa.

O governo diz que os números reais são muito menores. No entanto, as histórias contêm pelo menos uma pitada de verdade: os desempregados aqui perdem seus vistos de trabalho e, então, precisam deixar o país no prazo de um mês.

Isso, por sua vez, reduz gastos, cria vacância em moradias e faz baixar o preço dos imóveis em uma espiral descendente que deixou partes de Dubai – que já foi saudada como a superpotência econômica do Oriente Médio – parecendo uma cidade fantasma.

Em vez de aumentar a transparência sobre a situação, os Emirados Árabes Unidos (EAU) vão na direção oposta. Um novo projeto de lei sobre a mídia tornaria crime prejudicar a reputação ou a economia do país, punível com multas de até 1 milhão de dirhans (cerca US$ 272 mil).

Alguns dizem que isso já está tendo um efeito paralisante sobre o noticiário da crise. No mês passado, jornais locais noticiariam que Dubai estava cancelando 1.500 vistos de trabalho por dia, citando fontes governamentais anônimas.

Questionado sobre o número, Humaid bin Dimas, um porta-voz do Ministério do Trabalho dos Emirados, disse que não confirmaria nem negaria, e não quis comentar mais o assunto. Alguns dizem que o número real é bem maior.

Algumas coisas estão claras, contudo. Os preços dos imóveis, que subiram dramaticamente durante os seis anos de boom de Dubai, caíram 30% ou mais nos últimos dois ou três meses em algumas partes da cidade.

Há tantos carros de luxo à venda que eles, às vezes, são vendidos por 40% do preço pedido há dois meses, segundo revendedores de veículos usados. A maioria das ruas de Dubai, normalmente com tráfego pesado nesta época do ano, agora está vazia.

Alguns analistas afirmam que a crise não durará muito nos sete emirados que compõem os EAU, nos quais Dubai sempre fez o papel de irmão mais novo e rebelde que confronta a capital Abu Dabi, rica em petróleo e mais conservadora. O problema é que, até agora, a capital só ofereceu ajuda financeira para seus próprios bancos, ignorando o drama da cidade mais populosa do país.

Para muitos estrangeiros, Dubai parecia, no início, um refúgio relativamente isolado do pânico que começou a atingir o restante do mundo no segundo semestre do ano passado. O Golfo Pérsico está calçado por uma vasta riqueza de petróleo e gás, e algumas pessoas que perderam seus empregos em Nova York e Londres começaram a procurá-los aqui.

Entretanto, Dubai, diferentemente de Abu Dabi ou dos vizinhos Catar e Arábia Saudita, não tem seu próprio petróleo, e construiu sua reputação com imóveis, finanças e turismo.

Agora, muitos expatriados falam de Dubai como se ele tivesse sido um engodo o tempo todo. Rumores espalham-se rapidamente: a Palm Jumeira, a ilha artificial que é um dos marcos dos empreendimentos imobiliários da cidade, estaria afundando, e quando se abrem as torneiras nos hotéis construídos sobre ela, só saem baratas.

Hamza Thiab, um iraquiano de 27 anos que se mudou de Bagdá para cá em 2005, perdeu seu emprego em uma empresa de engenharia há seis semanas. Se não encontrar um trabalho até o fim de fevereiro, terá de partir. “Estou procurando há três meses, e só fiz duas entrevistas”, disse ele.

“Antes, a gente abria os jornais e via dezenas de empregos. Antes, muitos de nós estavam levando uma boa vida aqui. Agora, não conseguimos sequer pagar nossos empréstimos. Ficamos apenas dormindo, fumando, tomando café e tendo dores de cabeça por causa da situação.”

26 Agosto, 2008

Dubai: uma fantasia árabe, 28/08/08

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Blog Controvérsia, 28/07/08:

http://blog. controversia. com.br/2008/ 07/28/dubai- uma-fantasia- arabe/

Dubai: uma fantasia árabe

De poeirento posto comercial avançado, o emirado de Dubai transformou- se em líder auto-proclamado de uma ressuscitada civilização árabe. Sem uma democracia, tudo depende do trabalho de imigrantes de origem humilde. Continuará um oásis de tranquilidade no Oriente Médio por muito tempo?

Katharine Quarmby*

Dubai está no Oriente Médio, mas poderia estar em qualquer parte.

Praticamente a única coisa que liga este lugar ao passado são as vestimentas tradicionais, ainda usadas pelas pessoas que vivem lá. Os edifícios são, de maneira geral, de um moderno estilo futurista.

Culturalmente, é uma zona tranqüila em comparação com o austero tradicionalismo que impera na vizinha Arábia Saudita ou no Irã.

A ascensão de Dubai é fenômeno extraordinário. Antes um lugar atrasado, agora se constitui na conurbação de crescimento mais acelerado em todo o mundo, onde se encontra um quinto de todos os guindastes do mundo. É o sonho de um corretor de imóveis, lotada de novos empreendimentos de luxo – e um imã para os novos ricos internacionais.

Comenta-se que diversos jogadores de futebol da Inglaterra, incluindo David Beckham e Michael Owen, têm casa de luxo Palms Islands – as ilhas construídas pelo homem no oceano.

O edifício mais alto do mundo, o Burj Dubai, com mais de 160 andares, aguarda o seu término – embora não possa manter seu recorde por muito mais tempo, pois os planos para a construção da torre Al Burj, que pode chegar a 200 andares, já estão quase terminados. Um hotel sob a água está em construção assim como um novo aeroporto.

Os turistas estão chegando: mais de meio milhão de britânicos todos os anos, quase o mesmo da Arábia Saudita e cerca de 300.000 tanto da Índia quanto do Irã. A cidade espera 10 milhões de visitantes até 2010, mais que os 3,5 milhões do ano passado. Tudo isso apesar de não ter palácios antigos ou ruínas – apenas sol, mar, areia, compras e arranha-céus.

Ao mesmo tempo, Dubailand – a resposta do Oriente Médio à Disneyland – se presta a uma espécie de metáfora para toda a aventura: uma grandiosa importação de coisas sem origem definida em uma confusão de marcas e idéias globais, criadas para transformar a região no potentado do deserto.

A Dubai Inc., o título honorífico escolhido pela dinastia tribal que dirige o país para apresentar a si própria, tem um acordo não oficial – conhecido como “a barganha em vigor” – com os 1,3 milhão de habitantes do país: aceitem a limitação das liberdades que nós forneceremos o trabalho e a renda.

Os nascidos no país, que são 15% da população, recebem moradia e educação gratuita, mas não têm reais direitos democráticos. Os expatriados – 85% da população e 95% da força de trabalho – têm ainda menos direitos.

A liberdade de imprensa é restrita. As mulheres – mais de duas para cada homem – não gozam de igualdade com os homens, embora sua posição seja melhor que em outros países do Oriente Médio. Mesmo assim a maior parte dos moradores aceita isso como condição para se viver em uma das cidades mais vibrantes do mundo.

O sucesso da cidade, como admite a maior parte dos habitantes, deve-se ao espírito visionário da família Maktoum. No final dos anos 1960, partindo do princípio que Dubai tinha poucos recursos naturais, os líderes do emirado adotaram várias decisões que acabaram levando à construção do Jebel Ali, um porto de alto calado, o maior do Oriente Médio, localizado junto a uma grande usina de alumínio. A aposta compensou, uma vez que o porto, o maior do Oriente Médio, ajudou Dubai a se consolidar como o centro comercial indispensável na região.

Hoje em dia o porto e as docas secas estão entre os mais movimentados no mundo. Dubai registrou uma taxa de crescimento mais acelerada que a da China e a da Índia na década passada, e agora tem a renda per capita mais elevada que Cingapura. Sua riqueza, ao contrário de grande parte do resto dos Emirados Árabes Unidos (EAU) e de outros países do Oriente Médio, não depende do petróleo, que contribui com apenas 5% de sua economia, em comparação com os 36% para o total dos EAU.

Pelo menos três quartos da receita nacional de Dubai vem do setor de serviços (imóveis, turismo e varejo). O setor financeiro responde por 10% da economia, e Dubai está na vanguarda do moderno sistema financeiro islâmico, graças à fundação do Dubai Islamic Bank em 1975, o primeiro banco totalmente comercial a se harmonizar aos princípios da Sharia.

Os Emirados Árabes Unidos – uma federação de sete emirados, entre os quais Dubai e Abu Dhabi são os mais importantes – ficaram independentes em 1971. Até então, os Países da Trégua – Trucial Oman – como os emirados eram conhecidos anteriormente, eram protetorados britânicos. desde meados do século 19, quando os xeques no poder no Golfo Pérsico firmaram acordos com os britânicos em troca de proteção aos seus serviços de embarque.) Eles agora são governados por um conselho supremo de emires, ou governantes hereditários, que indicam a si próprios para os principais cargos.

Segundo um acordo informal entre os emires, o governante de Abu Dhabi, o maior dos sete emirados e o principal produtor de petróleo dos EAU, é o presidente dos EAU, e o governante de Dubai – atualmente o xeque Mohammed Bin Rashid AL-Maktoum, filho do fundador do país – é vice-presidente e primeiro-ministro. Mas o alcance do governo federal é limitado e os emirados reservam consideráveis poderes para si mesmo, incluindo o controle sobre os direitos de mineração.

Com seus arranha-céus e frenética acumulação de riqueza, emirados tais como Dubai e Abu Dhabi tornaram-se símbolos do tipo de modernidade agressiva que parece tê-los separado do restante da região. Mas no que se refere a um avanço democrático, os EAU se ajustam aos desoladores padrões do Oriente Médio.

Os partidos políticos estão proscritos e não houve eleições de qualquer tipo até dezembro de 2006, quando os sete governantes dos emirados selecionaram 6.595 cidadãos para eleger metade do conselho federal nacional – um “comitê consultor” sem poderes.

Os pedidos de reformas que existem tendem a vir da população de expatriados, entre os quais nem todos participaram dos lucros do crescimento de Dubai. Na verdade, existe uma acentuada divisão entre a força de trabalho de estrangeiros de Dubai na qual se incluem os ricos empresários do Irã, Arábia Saudita, Europa e outros, e os imigrantes pobres que se concentram no setor de construção civil, e vêem principalmente da Índia, Bangladesh e Paquistão.

Esse último grupo – que chega talvez a 250.000 – trabalha por salários miseráveis em condições perigosas e mora em dormitórios apinhados na periferia da cidade. Seu trabalho é o motor da expansão de Dubai e mesmo assim eles não se encaixam na história que Dubai conta sobre sua vertiginosa transformação.

Dubai é a Suíça do Oriente Médio – útil para todos e, portanto intocável. Os americanos precisam de um aliado no Golfo. Os iranianos usam Dubai como paraíso para transações em dinheiro sem registro, assim como, supostamente, a Al Qaeda. B. S. A. Tahir, mão direita de A. Q. Khan – o cientista nuclear paquistanês que durante anos planejou a proliferação de uma rede internacional nuclear clandestina – operava de Dubai. Dubai é aloja de conveniência do Oriente Médio, e quem quer bombardear a loja da esquina?

E mesmo que as forças de segurança de Dubai tenham condições de controlar o fundamentalismo, pelo menos por enquanto, Dubai enfrenta outros perigos. Sua economia não depende diretamente das receitas da produção de petróleo, mas grande parte do dinheiro que flui para a região vem do petróleo. O boom imobiliário deve-se quase inteiramente a entradas de petrodólares sauditas e iranianos, e se o preço do petróleo despencar, Dubai será seriamente afetado.

Outra vulnerabilidade é a dependência de Dubai do gás barato que vem do Qatar, sustentando todo o projeto de desenvolvimento. Finalmente, existem as preocupações com o meio ambiente. Não só Dubai está empregando vastas quantidades de energia para construir seus campos de golfe e pistas de esqui, como também é particularmente vulnerável aos efeitos da alteração climática.

Se as temperaturas se elevarem, Dubai poderá tornar-se quente demais para os mimados e exigentes turistas – mesmo com todo aquele ar-condicionado. Se os níveis do mar aumentarem só mais um pouco, as ilhas artificiais de Dubai e a orla litorânea poderão ser retomadas pelo mar. Os recifes de coral dos EAU, uma das principais atrações, já foram afetados como resultado do aquecimento global.

E cada vez mais surgem alternativas a Dubai. Abu Dhabi abriu setores imobiliários que poderão ser adquiridos por estrangeiros e está gastando bilhões em hotéis de luxo. A Arábia Saudita está no processo de construir um projeto imobiliário de US$ 26 bilhões – a Cidade da Economia do Rei Abdullah.

Na verdade, dificilmente Beckham e Owen levantarão acampamento para o reino de Wahhabi (a Arábia Saudita) mas o Bahrein e o Qatar atraem os ocidentais com seus hotéis de luxo e toleram o álcool e as roupas ocidentais – e também foram mais longe na rota das reformas políticas. Mesmo o Irã faz planos para comercializar sua própria ilha resort, Kish.

Por enquanto, porém, Dubai, com seus hotéis de luxo, mercado em funcionamento e tolerância com os hábitos ocidentais, é o lugar para onde os habitués de praia e os fanáticos por compras querem ir. Lá se vende o estilo árabe-light para aquelas pessoas que gostam de ir às compras, mas se sensibilizam em ver o deserto e também segurar falcões.

*Katharine Quarmby está escrevendo um livro de memórias sobre sua longa busca pela família nascida no Irã.

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