MIGREPI

4 Novembro, 2008

Pequim quer fazer de Moçambique o celeiro chinês, 21/07/08

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Jornal Digital, 21/07/08:

http://www.jornaldigital.com/noticias.php?noticia=16165

Pequim quer fazer de Moçambique o celeiro chinês

Afirma o investigador Loro Horta

Pequim – Os governos da China e de Moçambique querem fazer da região moçambicana do Vale do Zambeze um centro de produção de arroz para o mercado chinês, que se deparará com aumentos de consumo e cada vez menos terra arável, afirma o investigador Loro Horta, especialista nas relações entre a China e os países africanos de língua portuguesa.

Afirmando que o interesse chinês pela região do vale do rio Zambeze vem desde 2006, Loro Horta destaca os recentes sinais da relação política entre Pequim e Maputo como um sinal do interesse chinês de longo prazo na exploração agrícola em Moçambique, um plano que Loro Horta diz ser mutuamente benéfico, desde que bem planeado e cumprido.

«Se implementado com sensibilidade, os planos agrícolas da China poderão trazer benefícios tremendos para os dois lados», afirma Horta, investigador timorense baseado na Universidade Nanyang, de Singapura.

Num artigo publicado em meados de Julho, Loro Horta afirma que o interesse chinês começou a manifestar-se no início do segundo semestre de 2006, quando a China atribuiu a Moçambique, através do banco estatal Exim Bank, um empréstimo de dois mil milhões de dólares para a construção da barragem de Mpanda Nkua, no rio Zambeze a juzante da barragem de Cahora Bassa.

Desde então, segundo Horta, «a China tem vindo a pedir o aluguer de grandes áreas de terreno para estabelecer mega-fazendas e explorações pecuárias geridas por chineses».

Além de Mpanda Nkua, o investigador lembra também que a China se ofereceu para financiar três outras barragens no Zambeze e outras duas no rio Limpopo, ao mesmo tempo que está a construir novas estradas e a modernizar as infra-estruturas portuárias de Guelimane e Nacala, nas províncias da Zambézia e de Nampula, respectivamente.

«Este investimento em infra-estruturas é claramente designado para maximizar a produção e facilitar a rápida exportação de bens alimentares para a China, atribuindo ao mesmo tempo lucrativos contratos a empresas chinesas», considera Horta.

«A China atribuiu recursos significativos à melhoria da produção agrícola, com o arroz como principal prioridade. No início de 2008, o governo chinês prometeu investir 800 milhões de dólares na modernização da agricultura moçambicana, com o objectivo e aumentar a produção de arroz das 100 mil toneladas para as 500 mil toneladas por ano nos próximos cinco anos», acrescenta.

Segundo estatísticas oficiais chinesas, o consumo de arroz na China duplicou entre 1985 e a actualidade, para 50 quilos por pessoa, em consequência do crescimento económico do país.

Ao mesmo tempo que a quantidade de área arável se reduz cada vez mais na China devido ao aumento do tamanho das cidades e zonas residenciais e à degradação ambiental, a terra é cada vez mais disputada para assegurar a produção de outras culturas, como a soja, o açúcar e os cereais, cujo consumo aumentou mais de 30 por cento na última década.

«O crescente aumento da procura alimentar e o rápido desaparecimento de terra arável (…) fazem da descoberta de novos terrenos agrícolas uma prioridade para o governo chinês», considera Loro Horta, acrescentando que “a China está apostada em transformar Moçambique num dos seus principais fornecedores de alimentos, em especial de arroz, a base da alimentação chinesa”.

Horta prevê que a expansão chinês ano domínio do arroz em Moçambique tenha início com a emigração de cerca de um milhar de chineses para o vale do Zambeze numa tendência a observar nos próximos anos. A mão-de-obra chinesa, afirma, vai operar equipamentos agrícolas avançados e gerir as grandes fazendas e a infra-estrutura de irrigação, com os trabalhadores moçambicanos a assegurar as tarefas manuais mais pesadas.

Quanto ao controlo da terra – que é estatal e portanto não pode ser vendida ou alugada – o investigador prevê a criação de parcerias com entidades moçambicanas que serão «parceiros mudos» com os sócios chineses a assegurar a gestão do negócio.

«O aumento da produção de arroz em Moçambique destina-se claramente às exportações para o mercado chinês, uma vez que o arroz representa apenas uma fracção mínima da dieta moçambicana e é sobretudo consumido pelos ricos nas grandes cidades. Mais de 90 por cento da população do país depende da mandioca e da shima (flor de mandioca), milho e amendoins», afirma.

Loro Horta diz também que «Moçambique espera receber o pagamento das exportações de arroz em divisas que, por seu turno, lhe vão permitir comprar bens produzidos na China e outras matérias-primas no mercado global».

É também com este objectivo, afirma, que Maputo e Pequim acordaram criar em Moçambique um instituto de investigação em agricultura avançada – com verbas chinesas – bem como outras escolas agrícolas um pouco por todo o país.

Outros projectos financiados pela China incluem redes de canais de irrigação, para além da deslocação a Moçambique de mais de 100 peritos chineses incluindo uma equipa do Instituto de Arroz Híbrido de Hunan, um dos melhores institutos de investigação sobre o sector em toda a China.

Fonte: Macauhub

Principal potência que se beneficia da globalização está na Ásia, 06/09/08

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Blog Controvérsia, 06/09/08:

http://blog.controversia.com.br/2008/09/06/principal-potencia-que-se-beneficia-da-globalizacao-esta-na-asia/

Principal potência que se beneficia da globalização está na Ásia

Caroline Fourest*

Nós adotamos o hábito de denunciar a globalização como uma forma de ocidentalização. Os adversários do universalismo vão mais longe, assimilando a ocidentalização a uma espécie de colonização cultural. Essa retórica permite principalmente que os regimes autoritários associem ao Ocidente valores como os direitos humanos, a democracia ou a laicidade, para melhor recusá-los em nome do antiimperialismo. Essa estratégia discursiva poderia causar ilusão enquanto a maior potência econômica era americana. O que será amanhã, quando finalmente percebermos que a principal potência que se beneficia da globalização não vem do Ocidente, mas do Extremo Oriente?

Vários conflitos, notadamente os que dilaceram a África, não são mais ditados pelos interesses econômicos europeus ou americanos, mas chineses. A sinistra “Françáfrica” está sendo amplamente destronada pela “Chináfrica”, do nome de um livro de Serge Michel e Michel Beuret que descreve bem essa nova realidade (editora Grasset). O comércio bilateral entre as duas regiões quintuplicou entre 2000 e 2006. Estima-se em 500 mil o número de chineses que vivem na África para construir estradas, hotéis e barragens. É o que já se chama de “aspecto positivo” da presença chinesa na África. O aspecto negativo é esse apetite devorador de energia e de matérias-primas, que a levou a fazer negócios com ditadores em detrimento das populações, da democracia, do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável.

Oficialmente, é claro, não se trata de dominação. A China insiste ao contrário em aparecer como uma potência do sul, e lembra sua presença ao lado dos não-alinhados na conferência de Bandung. Durante as cúpulas sino-africanas ela reivindica uma “parceria estratégica de um novo tipo”, caracterizado pela “igualdade e a confiança recíproca no plano político” e na “cooperação em que todos saem ganhando no plano econômico”. Dito de outro modo, ela defende sem complexos um negocismo diferencialista do tipo “nossos lucros valem mais que os direitos humanos”.

Sem essa política cínica, haveria menos mortos em Darfur, mais democracia na Birmânia e talvez um novo governo no Zimbábue. Bizarramente, além de países que buscam tentam esquecer suas próprias vítimas, muitos poucos sonham em denunciar a falta de consciência dessa nova força econômica. Sobretudo não certos militantes que reivindicam uma consciência antiimperialista ambígua, feita de admiração pela “resistência” islâmica e uma certa complacência em relação à China.

Esses não militam realmente a favor de um eixo Norte-Sul mais justo, nem mesmo contra os efeitos da globalização ultraliberal. Eles desejam sobretudo uma vingança de identidade contra os EUA, a Europa e Israel (ou seja, contra os judeus). Desde que é oriental e não ocidental, a China pode portanto se permitir pilhar a África ou mesmo discriminar sua minoria muçulmana uigur sem correr o risco de ser chamada à ordem.

Esse posicionamento acrobático corre o risco de ser cada vez mais difícil de manter. Depois de um período de dominação principalmente discreto, empurrado pelas necessidades crescentes de energia e matérias-primas, a nova potência do Extremo Oriente poderia ser tentada a passar a uma marcha mais rápida. O sucesso de seus imigrantes já provoca hostilidade na Indonésia, onde o sentimento antichinês continua pronto a ressurgir. Na África algumas populações resmungam contra esses chineses que se vêem em toda parte e que roubam seu trabalho… Com o tempo esse ressentimento talvez acabe fazendo esquecer velhos rancores, como o que existia entre a Europa e suas antigas colônias.

No entanto, enquanto o islamismo ocupa o teatro de nossas preocupações imediatas, a oposição Ocidente/Oriente funciona como uma cortina de fumaça. Nos bastidores a China tem interesse nisso. Em um plano econômico, o azedume dos países muçulmanos em relação ao Ocidente lhe permite conseguir contratos por preços que não poderia negociar sem esse contexto exacerbado. Em um plano mais simbólico, o enfoque no Ocidente lhe permite ter todas as vantagens da potência econômica sem os inconvenientes.

Essa situação idílica não poderia durar. A China percebe que sua nova situação supõe deveres para com a comunidade internacional. Sua mediação em Darfur, suas hesitações a respeito das armas pedidas por Mugabe e o início da transparência durante o terremoto em Sichuan são sinais animadores. Em algumas gerações, como todas as primeiras potências, ela terá secretado seus próprios contrapoderes.

Enquanto isso, a nova ordem mundial à sombra da China promete horas de instabilidade em detrimento dos direitos humanos. Quem terá meios para contestá-la? Não a França de Nicolas Sarkozy, tão sensível aos interesses do mundo dos negócios. Durante seu discurso sobre a política de civilização ele sugeriu uma diplomacia que prefira “a diversidade à democracia”. Uma expressão que corresponde palavra por palavra ao credo utilizado pelos dirigentes chineses para reivindicar um mundo sob o signo do diferencialismo e do negocismo, e não sob o signo do universalismo e dos direitos humanos.

*Caroline Fourest é ensaísta e professora na Science Po.

“Le Monde”

 

1 Setembro, 2008

Por trás dos atentados em Xinjiang, a ira de uma população “ultracontrolada”, 14/08/08

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Le Monde, 14/08/08:

Por trás dos atentados em Xinjiang, a ira de uma população “ultracontrolada”

Brice Pedroletti

Rémi Castets, especialista em Xinjiang no Centro de Estudos de Relações Internacionais (Sciences Po), analisa as origens do ressentimento uigur diante do poder de Pequim.

Le Monde – Três guardas foram mortos em Kashgar nesta terça-feira (12). É o terceiro atentado em uma semana em Xinjiang. Quem está por trás desses ataques?

Rémi Castets – Para se lançar em ações como essa é preciso formar uma rede, estar radicalizado, é necessário um mínimo de preparação. Estamos diante de grupos que querem aproveitar a atenção da mídia ligada aos Jogos Olímpicos. Sempre houve redes operacionais ou grupos de jovens montados para falar dos problemas dos uigures. De todo modo, é chocante ver que houve uma ação muito sangrenta. Se ela é um ato de grupos nacionalistas, é um mau jogo, pois pode afastar deles o apoio ocidental. Também há grupos islâmicos: alguns não-violentos, mas outros mais estruturados, que visam conquistar o apoio das redes islâmicas internacionais e que zombam da opinião pública ocidental.

LM – Qual o motivo do ressentimento de alguns grupos da população uigur?

Castets – Primeiro, a reivindicação de uma autonomia real. O Partido Comunista Chinês exerce um controle estrito da administração da região autônoma uigur, cuja autonomia é fictícia. Segundo: a colonização demográfica dos hans, que passou de 6% por volta de 1949 para cerca de 40% hoje. Há todo tipo de recriminação. Contra os órgãos de construção e de produção de Xinjiang, que, ao colonizar, captam as terras e entram em concorrência com os camponeses uigures. Terceiro problema muito mal vivido pelos uigures: a política de controle de nascimentos. Limitar o número de crianças nessas famílias vai contra suas tradições – as minorias étnicas têm direito a um filho a mais que os hans. Quarto fator, o principal: nos anos 1980 o controle do partido sobre a sociedade havia abrandado. Os uigures pensaram que poderiam negociar. Nos anos 1990 tudo endureceu: para erradicar as redes de oposição que se estruturavam, o partido implanta um aparelho de controle jurídico muito restritivo, principalmente em termos culturais e religiosos. As “meshrep”, reuniões tradicionais que se politizam, são proibidas. Mas eram lugares de socialização. O mesmo vale para o islã: tornou-se ultracontrolado. Nos anos 1980 as madraças (escolas corânicas) subterrâneas haviam emergido. Quando essas escolas foram fechadas, é a partir das redes de estudantes que se estruturaram os movimentos islâmicos dos anos 1990. Hoje os imãs são extremamente vigiados. Tudo isso gera ressentimento.

LM – O governo chinês exagera a ameaça islâmica em Xinjiang?

Castets – Desde 2001 o que prejudica a credibilidade do governo chinês é que assim que acontece alguma coisa em Xinjiang cada célula desmontada, cada ação violenta ou não, é atribuída ao Etim (Movimento de Libertação do Turquistão Oriental) – sob o pretexto de que os americanos haviam reconhecido esse movimento. Mas as células nacionalistas não têm nada a ver com o mundo do jihadismo internacional. Há acontecimentos que não são políticos na base: por exemplo, um pai de família uigur que ataca o representante do departamento de controle de nascimentos. Também há acertos de contas entre funcionários públicos que se beneficiam um pouco demais de suas prerrogativas. Vêem o Etim em toda parte, mas não é tão simples assim.

Agressões mostram a divisão dos chineses entre xenofobia e simpatia, 09/08/08

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UOL Notícias, 09/08/08:

Agressões mostram a divisão dos chineses entre xenofobia e simpatia

Rodrigo Bertolotto

Em Pequim (CHN) 

As notícias de agressões a cidadãos dos EUA e da Austrália trouxeram à tona o tema da xenofobia na China. Isso quando as autoridades do país estavam programando um mega-esquema de segurança em Pequim, tirando da cidade mendigos, desempregados e prostitutas e enchendo de policiais, soldados e voluntários.

CRIMES CONTRA ESTRANGEIROS

A morte de parente de membro da comissão técnica do vôlei masculino dos EUA surpreendeu a mídia presente na capital chinesa. Afinal, a expectativa era haver protestos isolados durante os Jogos aproveitando as atenções mundiais voltadas para lá – temas não faltam como direitos humanos, Tibete, separatismo muçulmano, liberdade de imprensa etc.

A China viveu anos de isolamento internacional da década de 40 até o começo dos anos 80, quando era ensinado que todo estrangeiro, principalmente o ocidental, era uma ameaça ao regime. Com a abertura econômica incentivada por Den Xiaoping há 20 anos, isso começou a mudar.

Pequim, inclusive, é uma cidade considerada cosmopolita, com forte presença estrangeira, seja pela comunidade diplomática ou empresarial atraída pelas sedes e escritórios na cidade.

As manifestações de xenofobia, porém, não são raras. Os episódios mais conhecidos recentemente são em relação ao Japão, que invadiu e dominou a China antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A cada homenagem de um governante japonês aos heróis daquela guerra há a reação chinesa com protestos na frente da embaixada do Japão em Pequim.

Na cerimônia de abertura dos Jogos, a delegação nipônica entrou no estádio Olímpico com providenciais bandeiras chinesas na mão. E foi recebida com aplausos pelo público presente no Ninho de Pássaro. Os norte-americanos também foram ovacionados, ainda mais quando Kobe Bryant, da NBA, foi focalizado pelo telão do recinto. O único que recebeu vaias foi o presidente dos EUA, George W. Bush, quando se levantou para saudar seus compatriotas.

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