MIGREPI

4 Novembro, 2008

Darfur desestabiliza a África central, 21/06/08

Arquivado em: Chade, Sudão — migrepi @ 5:33 am
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El Pais, 21/06/08:

Darfur desestabiliza a África central

A guerra não declarada entre o Chade e o Sudão incendeia toda a região

De Pere Rusiñol

Em Madri

Em Goz Beida, a leste desse convulsionado Chade, é muito fácil saber quem tem armas: todo mundo. O complicado é descobrir a serviço de quem estão as pessoas. A fronteira entre o Chade e o Sudão, de quase 600 quilômetros, transformou-se na moradia de rebeldes de todas as condições e na meca dos traficantes de armas. O barril de pólvora que é Darfur (oeste do Sudão), que agoniza desde 2003 e conta já 300.000 mortos e 2,5 milhões de refugiados, já incendiou todo o centro da África e ameaça com uma guerra aberta que poderia estender-se pelos quase 2.000 quilômetros que separam Ndjamena e Cartum, com ramificações em outros países, como República Centro-Africana e Uganda.

“É impossível distinguir quais são os rebeldes, porque existem pelo menos 20 grupos – entre chadianos e sudaneses -, muitas deserções e as mudanças de lado são contínuas”, explica dando de ombros um soldado irlandês da Eufor, a missão da União Européia (UE), que destacou 3.000 militares (70 espanhóis) para a zona na tentativa de evitar que um irrompa um conflito. Cartum arma os rebeldes chadianos, divididos em inúmeros grupos. E Ndjamena arma os guerrilheiros de Darfur, fragmentados de sua parte em siglas incompreensíveis. A Eufor levantou em apenas um mês uma fortaleza inexpugnável em meio ao deserto de Goz Beida. Corpulentos irlandeses fazem as patrulhas, armados até os dentes – pistolas alemãs, metralhadoras francesas, lança-granadas israelenses – por pistas de terra pelas quais circulam muitas crianças e mulheres em lombos de burros, a 60 graus de temperatura. Os rebeldes estão em todas as partes: nas últimas semanas ocuparam várias cidades e ameaçam iniciar a ofensiva final sobre Ndjamena. E os guerrilheiros de Darfur prometem tomar Cartum em breve.

As ameaças não são meras bravatas. Em fevereiro, os guerrilheiros chadianos entraram em Ndjamena e chegaram a cercar o palácio presidencial. A cidade está agora em alerta máximo: os soldados patrulham cada esquina e foram cavadas trincheiras em todas as entradas. E em maio, a principal facção rebelde de Darfur – cujo líder pertence à mesma tribo que o presidente do Chade, Idriss Déby – instalou-se em Cartum e deixou em estado de choque o regime islâmico de Omar el Bashir.

Na prática, o Chade e o Sudão já estão em guerra por meio de guerrilhas que se cruzaram. São dois países de grande importância estratégica – no centro da África, com fronteiras com outros 10 países – e econômica – ambos contam com monumentais quantidades de petróleo – e o conflito pode desestruturar toda a região. “O risco de uma nova crise regional nas dimensões da ocorrida nos Grandes Lagos é enorme”, adverte Jean-Cristophe Belliard, assessor para assuntos africanos do chefe da diplomacia européia, Javier Solana. O fantasma dos Grandes Lagos é aterrador: milhões de pessoas morreram na década de 1990 em crises sucessivas e inter-relacionadas que se foram estendendo para Ruanda, Burundi, República Democrática do Congo e outros países. “A Eufor quer evitar uma catástrofe semelhante”, acrescentou.

O Sudão, que vetou a presença de soldados ocidentais em Darfur, interpretou o envio de soldados como um movimento hostil: “A missão da UE procura, na realidade, reforçar o regime de Déby e os franceses buscam legitimidade internacional para apoiá-lo”, afirmam fontes diplomáticas sudanesas. Déby enviou reforços militares a todos os rincões do Chade. “Certamente existem muitos rebeldes, mas agora tudo está sob controle; nós os mantemos na linha”, afirmava um dos militares que chegou a Goz Beida para reforço, pouco antes que os guerrilheiros ocupassem durante algumas horas a cidade. Vários militares o acompanhavam, ouvindo música árabe, montados em um Toyota. Quase todos adolescentes fumavam e exibiam seus sorrisos e seus fuzis Kalashnikov.

Toda a região está cheia de campos de refugiados e de pessoas que foram desalojadas: de Darfur, do Chade, da República Centro-Africana. No total há quase 500.000. A maioria leva quase quatro anos esperando em tendas sob um sol abrasador. Todos sonham com o retorno para casa, mas agora se conformam com o fato de não serem atingidos por nenhuma das muitas balas que todos os dias passam roçando por eles.

Tradução: Claudia Dall’Antonia

26 Agosto, 2008

A África refletida no espelho da França, 01/12/07

Folha de São Paulo, 01/12/07:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0112200718.htm

A África refletida no espelho da França

PHILIPPE BERNARD
DO “MONDE”

O escândalo da ONG Arca de Zoé [que no mês passado tentou levar para a adoção na França 103 crianças chadianas apresentadas como "órfãos de Darfur"] ilustrou plenamente, a ponto de torná-la caricata, a visão da África que impregna a sociedade francesa.

Como um espelho que deforma os objetos que reflete, a empreitada de Eric Breteau [diretor da ONG] e a disposição imediata de Nicolas Sarkozy em querer arrancar os acusados das mãos da Justiça chadiana refletem a hipocrisia de nossas relações com o continente negro. Em segundo plano, o caso traduz a batalha ideológica travada em torno de Darfur.

Como nos tempos das colônias, a África refletida pela Zoé é um continente cuja opinião não interessa em tempos normais -é demasiado desesperador e complicado-, mas que regularmente provoca manifestações de emoção. Vem daí a tentação de preparar um “golpe”: buscar crianças apresentadas como sendo vítimas de guerra, visando denunciar a suposta indiferença da comunidade internacional em relação ao conflito de Darfur.

Terra de ninguém

Isso supõe que se veja a África como uma espécie de terra de ninguém onde os ocidentais podem agir como bem entendem, inclusive desrespeitando as regras que eles mesmos alegam promover. Torna-se possível então tomar crianças chadianas por crianças sudanesas de Darfur, filhos de famílias numerosas por órfãos, um país independente por uma zona sem leis. Como no imaginário colonial, os negros seriam crianças grandes, um pouco irresponsáveis, pelos quais se poderia fazer o bem mesmo que eles não o queiram, quando necessário lhes dando uma lição.

Em relação às crianças e suas migrações, o caso põe em evidência nossas próprias contradições. A sociedade francesa pode exigir exames de DNA para comprovar a filiação de crianças negras imigradas, ao mesmo tempo em que alguns de seus membros buscam junto a chefes de povoados outras crianças negras, sem preocupar-se com a existência ou não de seus pais.

Como se surpreender com o fato de tal cenário, para os africanos, evocar -mesmo que de maneira abusiva- o tráfico de negros, e de que seja explorado em detrimento da França? A “África de Zoé” simboliza também nossa dificuldade em compreender realmente o que se passa ao sul do Saara. Em admitir concretamente que o leste do Chade vive parcialmente em outro século. Que, como nos livros de Hugo ou Dickens, alguns pais são tão pobres que talvez sonhem em entregar seu filho, em troca de uma remuneração, a estranhos que lhe prometam um futuro melhor.

Hipocrisia

A incompreensão é reforçada pela hipocrisia de nosso diálogo com os africanos: o sentimento de culpa pós-colonial do qual esses últimos sabem abusar, os interesses econômicos e estratégicos, tudo isso impede a franqueza na relação bilateral. Nisso, a odisséia fracassada da Arca de Zoé aparece como revelador cruel.

A França ajudou Idriss Déby a chegar ao poder em 1990. Ela mantém em Ndjamena uma base militar com 1.100 homens que defende contra rebeliões o regime de Déby, em que a democracia tem pouco lugar. Na teoria, a França apóia um Estado soberano, porém frágil.

Mas a pouca confiança que a França sente na Justiça chadiana se manifesta quando franceses correm o risco de receber penas pesadas dessa Justiça. “Vou buscar os que ficaram lá, não importa o que eles tenham feito”, prometeu Sarkozy na época, provocando escândalo entre os chadianos.

A última luz lançada pelo caso todo diz respeito à análise do conflito em Darfur. Eric Breteau se inspirou no discurso do coletivo Urgence Darfur, que apelou para que se “passe à ação”. Antes de sua entrada no governo, Bernard Kouchner era uma das personalidades que transmitiram essa mensagem, ao lado de Bernard-Henri Lévy. Esse apelo defende a imposição de uma intervenção internacional no Sudão.

Diante dele, as organizações humanitárias como a Médicos Sem Fronteiras, do qual Ronny Brauman é ex-presidente, ou a Médicos do Mundo, cujas equipes trabalham em campo, rejeitam o que vêem como uma estratégia militar perigosa “à moda do Iraque”. Em resposta, os defensores do Urgence Darfur afirmam que esses ativistas humanitários têm dificuldade em reconhecer a gravidade de um conflito em que o papel dos “bandidos” não seja representado pelos EUA. “Pró-americanos” contra “antiimperialistas”, defensores da ação exclusivamente humanitária contra partidários de uma intervenção política ou mesmo militar, auxiliada pelos humanitários. Assim, a Arca de Zoé também veio reativar essa querela antiga entre “French doctors”.

Tradução de CLARA ALLAIN

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