MIGREPI

28 Novembro, 2008

Filhos não reconhecem os pais, 11/11/08

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Blog Controvérsia, 11/11/08:

http://blog.controversia.com.br/2008/11/11/filhos-nao-reconhecem-os-pais/

Filhos não reconhecem os pais

Cerca de 40% dos trabalhadores na colheita de cana-de-açúcar em SP são migrantes provisórios

Houve um dia em que Raimundo Francisco foi contar a história da sua vida aos seis companheiros com quem divide uma casa no interior de São Paulo. Nenhum ficou até o fim. “Para não chorar”, diz. Todos são do Maranhão. Seis vieram de Codó, um de Timbiras, municípios cujos índices sociais fazem dos bairros pobres de SP o melhor lugar do mundo.

Reginaldo trabalhava na roça própria. Fora da época da colheita, “o pior do dia era chegar em casa e não ter o que comer”. No fim do ano, ele reencontrava os amigos que desde abril estavam para os lados do sul colhendo cana. Apareciam com “uma motinho, um som”. “Eu queria ter também.”

Como os outros maranhenses que se apertam em dois cômodos. O mais novo tem 22 anos. O mais velho, 46. São casados, com quatro filhos na média. Dois são alfabetizados.

Dizem ganhar de R$ 700 a R$ 900 mensais brutos, mantêm contratos de safristas com usinas -em novembro rumam para o Maranhão. Sustentam-se longe de suas terras, mandam ajuda e persistem no sonho de não retornar de mãos vazias.

Falam dos filhos que não os reconhecem na volta. Dois garotos de Raimundo choraram e fugiram ao vê-lo.

A União da Indústria da Cana-de-Açúcar estima que pelo menos 54 mil cortadores de cana do Estado (40% da mão-de-obra) sejam migrantes provisórios. Deve haver mais, porque muitos já são inscritos com seus endereços paulistas. Milhares desembarcam em ônibus alugados por eles ou por “gatos”, os intermediários da contratação para o corte.

Na leseira da folga semanal, os colegas inventariam estragos. Edizon cortou um dedo amolando o facão. Com dor na coluna, Manoel não comparece à lavoura há dois dias.

Pedem que não se diga em que cidade moram, mas permitem a gravação da entrevista. Sabem de quem arruma outra família, “local”. E de conhecidos que voltaram oito meses depois e deram com a mulher recém-barriguda. As moças paulistas da vizinhança não estão nem aí para os cortadores. Amigos lastimam que, no prostíbulo, a rameira menos cotada cobre o equivalente a um dia e meio de salário do trabalhador

Folha de São Paulo

A crise econômica, meio ambiente e trabalho escravo, 16/11/08

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Blog do Sakamoto, 16/11/08:

http://colunistas.ig.com.br/sakamoto/2008/11/16/um-ponto-positivo-da-crise-economica/

A crise econômica, meio ambiente e trabalho escravo

Há pelo menos um efeito colateral “positivo” nessa crise econômica desgraçada que se espreguiça dos Estados Unidos para o resto do mundo: uma redução nos danos ao meio ambiente, do trabalho escravo e da expulsão de comunidades tradicionais.

Já disse neste espaço outras vezes que a Chicago Board of Trade, uma das maiores bolsas de mercadorias do mundo, tem mais “poder” para deter o avanço da soja sobre a Amazônia do que as políticas do Ministério do Meio Ambiente.

Quando o preço mundial sobe, cresce o interesse por expansão sobre novas áreas por aqui. Se o preço cai, o inverso. Analistas já prevêem um tombo de quase 50% no preço da soja entre julho deste ano e o primeiro trimestre de 2009.

Não é tão simples assim, mas é incrível como a relação direta funciona não só para o grão, mas também para outros produtos. Mesmo a indústria da carne bovina, que tem no mercado interno o seu principal comprador, também funciona com uma lógica semelhante.

Um amigo atentou para a possibilidade de que os trabalhadores temporários desses setores migrem para atividades mais danosas ao meio ambiente e a si próprios, como a produção de carvão ou exploração de madeira ilegal. Segundo ele, haveria escassez de postos de trabalho (já de má qualidade, diga-se de passagem), o que geraria esse êxodo para uma situação pior. Mas os indícios mostram que não haverá um pique nesse sentido, uma vez que as vendas internacionais e as cotações de produtos do setor siderúrgico também estão em queda. Ou seja, comprarão menos carvão vegetal produzido na Amazônia, uma de suas matérias-primas, que também é um dos principais vetores de superexploração do trabalho. Além disso, a construção civil nacional reduziu seu ritmo de expansão – e é ela um dos principais consumidores de madeira de desmatamento ilegal da Amazônia.

Não estou torcendo para o mundo ir para o buraco. Esse pensamento do “quanto pior, melhor” (usado, muitas vezes, tanto pelo PSDB quanto pelo PT quando fora do poder) é de uma completa irresponsabilidade. Lendo o noticiário da crise, percebe-se que especialistas adoram números, mas esquecem de pessoas de carne e osso, que podem perder, e muito, com ela.

Mas é importante mostrar que a crise deve arrefecer um pouco o rolo compressor do capital sobre a Amazônia e o Cerrado e, por conseguinte, diminuir o ritmo de desmatamento ilegal, de trabalho escravo, de expulsão de comunidades tradicionais. Estar atento a isso é importante para que possamos desenvolver ações para mudar o modelo de desenvolvimento predatório, que engole a gente e o seu meio. Ou seja, este é um bom momento para perceber essas relações negativas e planejar outros rumos, mais racionais e mais humanos.

Ao mesmo tempo, o governo federal deveria aproveitar esse momento e gastar dinheiro. Não em bancos e empresas que privativam lucros e socializam perdas, mas em uma reforma agrária real e decente e na geração de empregos e renda em regiões mais pobres. Estimular economias locais, indo além de políticas de transferência de renda, que têm um alcance limitado. Garantindo que aqueles que derrubariam a floresta,  limpariam pastos ou produziriam carvão não fiquem sem emprego com essa crise e com as outras que virão.

O significado original da palavra crise não é “problema” e sim “mudança”.  Que aproveitemos essa nuvem escura que se avizinha para arar melhor a terra par as próximas gerações. E não comprar guarda-chuvas.

11 Novembro, 2008

Uberlândia mantém fluxo de imigração crescente, 27/09/08

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Correio de Uberlândia, 27/09/08:

http://www.correiodeuberlandia.com.br/texto/2008/09/27/32116/uberlandia_mantem_fluxo_de_imigraca.html

Uberlândia mantém fluxo de imigração crescente

Em nove meses, Núcleo municipal realizou 5.973 atendimentos

Manuella Garcia

Repórter

A pesquisa “Síntese de Indicadores Sociais”, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou que o Sudeste recebeu mais da metade (50,1%) dos 19,7 milhões de imigrantes registrados no Brasil em 2007. Uberlândia, considerada a segunda maior cidade de Minas Gerais, comprova a tendência. De janeiro a setembro deste ano, o Núcleo de Migrantes realizou 5.973 atendimentos, uma média diária de 663,3, que, se for mantida nos próximos meses, deve superar o total de 7.394 pessoas atendidas em 2007.

De acordo com um estudo realizado pelo Centro de Pesquisas Econômico-Sociais (Cepes) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em 2001 metade da população era imigrante, sendo 31,27% de outra cidade do Estado, 21,24% naturais de outros municípios brasileiros e 0,17% nascidos no exterior.

Para a secretária municipal de Desenvolvimento Social, Habitação e Trabalho, Iracema Marques, o fluxo migratório que ocorre na cidade, apesar de forte há muito tempo, hoje está mais controlado. De acordo com a secretária, como resultado de um estudo que diagnosticou a realidade das pessoas que migram para Uberlândia. “Hoje temos um programa voltado exclusivamente para os imigrantes, o que deu agilidade e efetividade aos atendimentos”, disse Barbosa. Sabe-se, por exemplo, que a maioria é composta por adultos do sexo masculino, com faixa etária entre 18 e 30 anos.

Depois de conhecer a história de cada um, os assistentes sociais orientam os migrantes de acordo com sua necessidade. O programa atua também por meio da ronda social, que acolhe os migrantes que estão nas ruas. “Primeiro nós os levamos para um albergue, onde se alimentam, fazem a higiene pessoal e descansam”, afirmou a diretora do setor assistencial da secretaria, Edna Assunção. Até setembro deste ano, a Prefeitura distribuiu 2.983 bilhetes de ônibus. Em 2007 o total foi de 3.759. Segundo Iracema Barbosa, o Município repassa ao setor de imigração R$ 301 mil ao ano.

Busca pelo emprego é o maior estímulo à imigração

A busca por uma oportunidade de trabalho é o principal estímulo à imigração em Uberlândia. De acordo com o Cepes, em 2001 64,6% vieram em busca de emprego e 21,5% se mudaram para a cidade acompanhando outro parente, “provavelmente também em busca de emprego, educação e outros recursos que o Município oferece”.

Douglas Ferreira, 24 anos, natural de Pouso Alegre, saiu de casa há três meses por problemas decorrentes do uso de drogas. Depois de Brasília, chegou a Uberlândia onde quer “trabalhar na área de pneus” e pretende permanecer até o fim do ano. Sem lugar para ficar, ele costuma se alimentar e passar a noite no albergue noturno Ramatis. “Gostei da cidade, mas ainda tenho dificuldades para me manter nos trabalhos que consigo.”

Fundado em 1965, o albergue Ramatis é um dos dois que existem em Uberlândia. Além do pernoite, oferece café da manhã, almoço e jantar de forma gratuita. De acordo com a coordenadora Márcia Faria, cerca de 170 pessoas passam pelo local diariamente. A alimentação é oferecida também a moradores de rua, como dois catadores de papel, que almoçam e jantam no albergue todos os dias.

Os 68 leitos são ocupados por migrantes, que podem passar até três noites no Ramatis. “Há moradores encaminhados pela promotoria ou outros órgãos que são também acolhidos e que ficam por mais tempo”, disse Faria.  Erico Nascimento, aposentado por invalidez, 32 anos, mora no albergue há mais de um ano. Com um histórico de toxicologia e crises epilépticas, ele relatou que “passa por uma fase difícil”, e acabou abandonado pela família. “As pessoas do albergue foram as únicas que me ajudaram, porque posso passar mal a qualquer momento.”

A empregada doméstica Claudinéia dos Santos, 39 anos, é de Salvador (BA) e afirma que se mudou para Uberlândia há três anos acompanhando o marido, que tem família na cidade. Ela afirma que está esperando a casa ficar pronta para se mudar com a família. “Meu marido não gosta de albergue, mas também não durmo aqui todos os dias.”

Segundo Márcia Faria, o movimento migratório aumentou de três anos para cá e há grande número de usuários de drogas e alcoólatras, boa parte sem documentos. Ainda assim, diz que não há graves problemas de indisciplina. “As pessoas costumam respeitar o albergue”, disse a coordenadora. O albergue é mantido com subvenção da Prefeitura, que fornece também alimentos e produtos de limpeza, e com doações da comunidade.

7 Outubro, 2008

Empresários recorrem a albergues de Ribeirão para contratar mão-de-obra para as novas construções, 16/09/08

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Gazeta de Ribeirão, 16/09/08:

http://www.gazetaderibeirao.com.br/conteudo/mostra_noticia.asp?noticia= 1595880&area=92020&authent=A25C03391D63001BE508A28DDAB910

Vagas para migrantes

Empresários recorrem a albergues de Ribeirão para contratar mão-de-obra para as novas construções

DANIELLE CASTRO
Gazeta de Ribeirão
danielle.castro@gazetaderibeirao.com.br

Por conta da explosão de empreendimentos no setor de construção civil em 2008, empresários de Ribeirão Preto recorrem ao cadastro de migrantes do abrigo municipal para preencher o quadro de temporários nos canteiros de obras.

A assistente social Sheila de Alvarenga Vasco, coordenadora interina da Central de Triagem e Encaminhamento ao Migrante Itinerante e Morador de Rua (Cetrem), disse que muitos dos atendidos são bons profissionais e acabam sendo contratados.

“Ribeirão é um pólo receptor de migrantes por causa das safras e do atendimento em saúde. Eles vêm procurando emprego e servem de mão-de-obra barata, até porque não tem vínculo com a cidade. O empregador vem buscar aqui”, disse a coordenadora. O construtor Ricardo Bombonati, que trabalha há 10 anos na área, ficou sabendo da Cetrem por um colega e disse que a parceria tem dado certo. “Está difícil de achar gente para trabalhar porque o mercado de construção cresceu muito. Sempre que tem algum migrante com nosso perfil, as assistentes entram em contato”, disse Bombonatti.

A assistente social Ana Luisa Gouveia, da Cetrem, disse que a exigência de documentação (ou boletim de ocorrência de perda) para ficar no abrigo tem facilitado o contato com o mercado. “O pessoal tem vindo com documentos e profissão definida, o que facilita o encaixe”, contou Ana.

Para lavradores, Ana disse que há poucos empregos, em geral no café e na laranja, devido a mecanização do corte de cana. “Quem vem para cana já tem indicação da usina”, afirmou Ana.

O pedreiro Pedro Moreira Leite, 47, de Oswaldo Cruz, chegou à Cetrem procurando por emprego e estadia, e acabou passando por uma entrevista de trabalho. “Estava em uma obra em Araraquara, mas o serviço acabou. Agora vou esperar um retorno do pessoal daqui. Ficar parado não dá”, disse Leite.

SERVIÇO

Cursos grátis

Formação para construção civil
Senai – 0/xx/16/3632-7453

Quase 20 milhões de pessoas migraram em 2007; mais da metade eram nordestinos, 24/09/08

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Notícias UOL, 24/09/08:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2008/09/24/ult5772u863.jhtm

Quase 20 milhões de pessoas migraram em 2007; mais da metade eram nordestinos

Fabiana Uchinaka

Do UOL Notícias

Em São Paulo

Quase 20 milhões de pessoas migraram entre as grandes regiões do Brasil em 2007, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2008, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quarta-feira (24). Mais da metade dos emigrantes eram nordestinos (53,5%), que foram, em sua maioria, morar no Sudeste (66,7%), seguidos por aqueles que nasceram no Sudeste (20%) e, também majoritariamente, foram morar no Centro-Oeste (36%), atraídos pelo crescimento da região.

Os dados da pesquisa mostram ainda que quase toda a população do Nordeste (97,2%) e do Sul (94%) é formada de pessoas que nasceram na região onde moram. Já o Centro-Oeste, que abriga regiões como o Distrito Federal e Goías, de povoamento regional tardio, tem apenas 69,7% de população nativa.

Os estrangeiros que decidiram morar no Brasil somaram 692 mil pessoas e se acumularam principalmente na região Sudeste (71,6%). E nota-se que os movimentos migratórios, de uma forma geral, mantiveram as mesmas tendências verificadas desde o início da década de 1990.

A densidade demográfica média da população brasileira em 2007 foi de 22,3 habitantes por quilômetro quadrado, divididos de forma bastante irregular pelo território.

O Sudeste, por ter a economia mais desenvolvida, abriga 42% da população total, o que lhe garante a maior densidade do país: 87,4 habitantes por quilômetro quadrado. Só a região metropolitana de São Paulo concentra 20 milhões de pessoas, o correspondente a 10,5% da população total, superando todas as outras unidades da federação.

Já a região Norte, que possui quase metade (45,2%) da área total do país, tem apenas 8,1% da população e, portanto, 4 habitantes por quilômetro quadrado.

O Brasil está cada vez mais urbanizado. A taxa de pessoas morando em cidades foi de 83,5% da população total em 2007.

No Rio de Janeiro, a proporção sobe para 96,7%, porque a Estado não possui contingente significativo em atividades agropecuárias. E no Piauí, onde o trabalho rural predomina, a proporção cai para 62,1%.

25 Setembro, 2008

Deportação é utilizada em cidades brasileiras, 18/09/08

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Cobertura do III Seminário do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios – Fórum de Ciência e Cultura – UFRJ

18/09/2008

Deportação é utilizada em cidades brasileiras

Pesquisadora afirma é isto que ocorre quando moradores pobres são levados de volta a sua cidade de origem para evitar o crescimento de favelas.

Anatalia Jacuru

O campus Praia Vermelha da UFRJ foi sede do III Seminário do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios na primeira metade do mês de setembro. Uma das apresentações, coordenada pela professora Betty Rocha – UFRRJ, contou com a participação de Luciana Lago – professora no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da UFRJ e pesquisadora da rede Observatório das Metrópoles, Luciano Ximenes – professor da USP e Elisa Cunha – UFRJ.

Com a proposta de discutir o tema das migrações no Brasil, Luciana Lago apresentou seu trabalho falando sobre as novas barreiras, materiais e simbólicas e a mobilidade intra-urbana. Partindo de uma reflexão sobre questões que vão da mobilidade à circulação da metrópole, ela disse que “nas sociedades capitalistas a construção de barreiras está sempre condicionado às brechas como a circulação de pessoas e de coisas, que estão sempre vinculados. A reconstrução de barreiras e aberturas é algo visual, forte, caracterizando a materialidade da barreira enquanto que o simbólico é invisível, mas é transmitido através de estigmas (marcas)”.

Para Luciana, a política de deportação atinge grande parte das cidades. “Quando ouvimos falar em deportação, logo a imaginamos em escala internacional, mas ela ocorre também em níveis municipais” declarou. E afirmou: “em Maringá (SC), a política de deportação ocorre quando os moradores pobres são levados de volta à sua cidade de origem para que não ocorra o crescimento de favelas”.

A professora descreveu as principais fases ocorridas na Baixada Fluminense como exemplo de território periférico com limites bem demarcados. “Na década de 70, muitos consideravam a Baixada como o lugar mais violento do Estado. Nos anos 80, ela aparece integrada a movimentos sociais, evidenciando a luta de sujeitos que buscam sair da violência. E na década passada, a Baixada sai um pouco da mídia, a periferia deixa de estar em pauta” acrescentou.

Com dados do senso de 2001, Luciana falou da reconstrução da Baixada. “Através da redução pendular (relação casa/trabalho) de todas as classes, os moradores do bairro estão deixando de trabalhar longe de casa para ficarem mais próximos às suas residências” disse.

“Rocinha como síntese da mobilidade no Rio de Janeiro” foi o tema abordado pelo professor Luciano Ximenes que em sua palestra relatou que “a Rocinha é uma favela consolidada, mas suas características se afastam um pouco do termo favela e, ao mesmo tempo, ela não pode ser definida como um bairro”.  De acordo com Luciano, o fato de ser migrante  já é um agravante para se impor dentro da nova sociedade em que o indivíduo se inseriu, mas quando este, ainda por cima, mora em uma favela, o caso fica mais complicado.  “Quando a Rocinha está em conflito, existe uma imobilidade porque os moradores não podem sair ou entrar em suas casas. Se os moradores tentam burlar o sistema, acabam colocando suas vidas em risco” declarou o palestrante.

www.agenc.uerj.br

16 Setembro, 2008

Em pauta, o direito de ser diferente, 37/08/08

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O Estado de São Paulo, 31/08/08:

http://www.linearclipping.com.br/funai/detalhe_noticia.asp?cd_sistema=45&codnot=480730

Em pauta, o direito de ser diferente (Artigo)

O STF pode decidir se a diferença é um direito universal ou se há brasileiros de primeira e de segunda

José de Souza Martins*

Quando Joênia Batista de Carvalho, advogada brasileira da etnia wapichana, ocupou a tribuna do STF, na quarta-feira, não representou apenas a causa territorial dos indígenas de Roraima, como constava da agenda. Ao se paramentar com as marcas faciais de sua tribo e arrolar os fatos da relação dos indígenas de Roraima com o general Rondon e o Exército na demarcação dos confins do território brasileiro, o que os fez brasileiros muito antes de outros protagonistas do pleito, pôs em causa conexões inevitáveis do que motiva o processo. Trata-se de um processo de conotação histórica porque nele está em jogo mais do que a contestação do direito dos índios daquele Estado a uma reserva íntegra, já decretada com base na Constituição, que lhes assegure a materialidade de seu território de ocupação imemorial.

A invocação de problemas de segurança nacional em relação à demarcação de um território indígena contínuo e íntegro na faixa de fronteira é compreensível, mas parece irrelevante no mundo moderno, em face dos recursos técnicos de que dispõe o aparato responsável pela segurança das fronteiras do País. Esses setores recebem fotografias aéreas das diferentes regiões brasileiras a cada tantas horas, feitas a partir de satélite, e a cada tantos dias fotografias de melhor resolução. As Forças Armadas brasileiras, com esses recursos, sabem até mesmo que tipo e tamanho de avião estacionou num aeroporto até horas depois de o avião ter decolado, simplesmente com as imagens de seu fantasma na imagem gerada e deixada por sua temperatura no solo. O mesmo monitoramento identifica diariamente aviões não autorizados, procedentes de países vizinhos, que invadem o espaço aéreo brasileiro. A lei do abate permite que tais aviões sejam derrubados, caso não se identifiquem e não pousem onde os pilotos dos caças de abordagem determinarem.

O que o País precisa não é que os índios de Roraima sejam culturalmente lesados em nome da segurança das fronteiras. Precisa que as Forças Armadas estejam devida e permanentemente equipadas e treinadas para cumprir sua função constitucional na defesa das fronteiras do País. E isso estão, cabendo assegurar que disponham sempre do que necessitam para que essa missão não seja, ela sim, prejudicada. No Alto Rio Negro, que faz fronteira com a Venezuela e a Colômbia, território do município de São Gabriel da Cachoeira, com uma brigada do Exército estabelecida, em que 85% da população são indígenas, além do português são línguas oficiais o nheengatu, o baniwa e o tukano e nelas são publicados leis, decretos, portarias, editais. Nem por isso a segurança é menor.

No litígio que corre no Supremo, entre arrozeiros e governo federal, de que as vítimas do conflito territorial são os índios, há uma disputa entre duas concepções de terra: a terra como morada ancestral, referência de um modo de viver e de uma consciência do mundo que, suprimida, desencadeará o desaparecimento social e cultural de seus protagonistas; e a terra como mercadoria, mero instrumento de troca e produção, que pode ser comprada e vendida em qualquer lugar. Sua posse pelos arrozeiros, declarada ilegal no voto do ministro-relator, não é, pois, referência simbólica de identidade nem meio de sobrevivência cultural.

No processo está em jogo, também, uma tendência da história brasileira relativa à diferença entre a terra como propriedade fundiária e o território como patrimônio da nação. No antigo regime sesmarial, antecessor do atual regime fundiário, o Estado era titular do domínio da terra e os sesmeiros tinham dela a posse útil. A Lei de Terras, de 1850, alterou esse direito de modo que os fazendeiros se tornaram titulares de domínio e posse, um direito pleno. Com a Revolução de 1930, o Estado brasileiro tratou de recuperar em parte o domínio da terra para sobre ela exercer sua soberania no que sobrepusesse os interesses nacionais aos interesses privados. Nessa tendência houve a separação legal de solo e subsolo, retornando o subsolo e tudo que contém ao domínio do Estado. O mesmo acabou acontecendo com as terras do Distrito Federal, as marinhas e as terras indígenas.

O que está em jogo no Supremo é, portanto, a interrupção ou a mitigação do processo de reconquista do domínio do território pelo Estado Nacional. Os interesses dos índios, nesse aspecto, coincidem com os do Estado; o dos arrozeiros, não. Nas conexões dessa tendência histórica, temos o surgimento de sujeitos de direito e sujeitos de brasilidade diversos do convencional, mas igualmente legítimos.

Vale lembrar que em países como a Inglaterra, quando a expansão do capitalismo, no século 17, colidiu com direitos tradicionais da população, as lutas sociais asseguraram o reconhecimento dos direitos sociais como direitos precedentes em relação aos direitos econômicos e à conseqüente coisificação dos seres humanos na devastação cultural que se disseminava. No Brasil não tivemos, com a força social devida, instituições tradicionais reguladoras dos direitos dos pobres, trabalhadores e desvalidos porque esta era, afinal, uma sociedade escravista, resumida ao mandar e obedecer. As lutas tardias dessas populações, dos banidos da condição de sujeitos e privados do reconhecimento de identidade própria e ancestral, acabaram pondo na ordem do dia a reinvenção do Brasil numa perspectiva pluralista e multicultural. Mesmo no direito de propriedade, a Constituição de 1988 abrandou sua rigidez para acolher a legitimidade do costume quanto à posse e ao uso da terra.

Estamos num momento de recriação identitária e, portanto, de inclusão social não pela assimilação aniquiladora, mas pelo reconhecimento integrador do direito à diferença. Essa tendência histórica pode ser enriquecida ou empobrecida, dependendo do que o STF decidir, pois ele dirá se a diferença é um direito universal ou se há brasileiros de primeira e de segunda, em que a diferença continuará residual, como um defeito de caráter.

*José de Souza Martins é autor de Fronteira (A Degradação do Outro nos Confins do Humano), Hucitec, São Paulo, 1997

Refúgio para endinheirados com direito a megatorre, 27/08/08

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Blog Controvérsia, 27/08/08:

http://blog.controversia.com.br/2008/08/27/refugio-para-endinheirados-com-direito-a-megatorre/

Refúgio para endinheirados com direito a megatorre

Eduardo Kattah

Para um visitante pouco familiarizado com a região metropolitana de Belo Horizonte, é difícil saber o limite entre a capital e a cidade de Nova Lima. A melhor referência talvez seja uma futurista torre de 101 metros de altura, revestida com aço e cujo cume lembra um disco voador. A moderna construção, inaugurada no fim de 2005, se destaca no limite entre os dois municípios e é um dos símbolos do boom imobiliário que está mudando o perfil econômico de Nova Lima, após 300 anos de dependência da mineração.

Surgida com o início da produção aurífera em Minas, no começo do século 18, a cidade se consolidou nas últimas três décadas como um refúgio para os endinheirados da capital. Mais recentemente, a proliferação dos condomínios residenciais de luxo passou a ser acompanhada por empreendimentos e prédios comerciais, que estão sendo erguidos em tempo recorde e começam a despontar no cenário de serras que caracteriza o município.

De acordo com a prefeitura, Nova Lima já conta com 34 loteamentos transformados em condomínios residenciais. Entre 2005 e 2007, sete novos loteamentos foram aprovados e estão em construção. Os empreendimentos estão voltados para um público de alto poder aquisitivo, em busca de segurança e qualidade de vida. Foi justamente o que motivou o empresário Dilermando Corrêa, de 60 anos, e a mulher, Graça Corrêa, a trocarem a vida agitada da capital pela tranqüilidade do condomínio Bosque Residencial do Jambreiro, localizado próximo do acesso para a sede do município.

“A classe média alta está vindo para cá, atrás da mais qualidade de vida, ar puro. Essa cidade nasceu da mineração, mas hoje vive mesmo é do ‘ouro verde’, que são as matas”, observa o empresário. A família, porém, manifesta preocupação com o rápido crescimento imobiliário da região. Grande parte dos condomínios, por exemplo, ainda carece de rede de esgoto e as administrações precisam criar reservatórios ou estações de tratamento próprias. A casa de Dilermando, por exemplo, foi projetada para armazenar a água da chuva.

A nova população também causa uma demanda maior por serviços e infra-estrutura básica. A Associação Comercial e Industrial da cidade estima que cerca de 1.700 empresas e indústrias se instalaram na cidade nos últimos dez anos. “A absorção do crescimento de Belo Horizonte em Nova Lima ocorreu sem planejamento efetivo”, constata o prefeito Carlos Rodrigues (PT). Só no ano passado, a cidade – que tem pouco mais de 70 mil habitantes – aprovou seu primeiro Plano Diretor. “Acreditamos que agora teremos os instrumentos necessários para fazer com que esse crescimento se dê de maneira ordenada.”

Um dos aspectos mais visíveis é o significativo aumento do trânsito de veículos no perímetro urbano do município. O barbeiro Carlos Oliveira Santos, de 59 anos, confessa que ainda se surpreende com o movimento de carros na região central. “Aumentou muito nos últimos dois anos. Antes era bem mais tranqüilo. A gente nem escutava buzina.”

“Estado de S. Paulo Metrópole”

Retorno do migrante, 28/08/08

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Diario do Nordeste, 28/08/08:

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=567452

Retorno do migrante (Editorial)

Os programas sociais e os investimentos federais no Nordeste estão provocando a inversão do fluxo migratório outrora acentuado para o Sudeste. Agora, a tendência predominante é a do retorno para a região, depois de décadas de esvaziamento das áreas rurais, em decorrência das estiagens cíclicas.

No período 1996-2006, 1 milhão e 100 mil nordestinos se mudaram para o Rio de Janeiro e São Paulo, em busca de trabalho e melhores condições de vida, depois do esgotamento da terra de onde extraíam os meios para sobrevivência.

Nesse mesmo período, 1 milhão e 300 mil retirantes, desiludidos com a falta de emprego, especialmente em São Paulo, fizeram o caminho de volta.

Diante das transformações operadas nas pequenas localidades nordestinas, onde, a cada mês, a injeção financeira do Bolsa Família tem aliviado a fome de milhares de pessoas, 280 mil baianos e pernambucanos, principalmente, resolveram voltar ao torrão natal nos últimos meses. São Paulo passou a ser um mercado de trabalho com baixa oferta de emprego para quem não tem qualificação profissional.

As crises econômicas das últimas décadas promoveram mudanças substanciais na qualidade do emprego nos grandes centros urbanos. Depois, a rotatividade no poder retraiu o mercado de obras públicas, principal segmento empregador de operários sem especialização.

A saída foi inverter o caminho palmilhado por um imenso contingente de trabalhadores, desde a década de 50, quando as secas promoveram o desmantelamento da produção primária.

Os levantamentos da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad), do IBGE, flagraram, na trajetória de retorno, grupos cearenses, paraibanos, alagoanos, pernambucanos e baianos.

Ainda assim, o Centro-Sul tem continuado a receber levas de migrantes, especialmente de maranhenses, potiguares e sergipanos. Mas a concentração vem se fazendo, em maior escala e sazonal, no Paraná, Goiás, Rio Grande do Sul e nas regiões canavieiras de Minas Gerais e de Ribeirão Preto, em São Paulo.

No Nordeste, as condições estruturais do campo pouco foram alteradas. A seca continua frustrando safras agrícolas, sendo limitado o esforço governamental para modificar a economia primária. Em conseqüência, os contingentes humanos rurais têm se deslocado para as áreas periféricas urbanas, provocando escassez de mão-de-obra.

A agricultura familiar nordestina vem sendo incluída nos planos de financiamento agrícola, seguro-safra e garantia de preços mínimos, o que representa uma conquista irreversível. No Ceará, entretanto, o desmantelamento da estrutura da Ematerce, garantindo-lhe presença física nos 184 municípios do Estado, anulou os avanços conseguidos pela extensão rural, sem que o formato remanescente tenha recuperado o tempo perdido.

Sem atrativo, o homem da roça não retorna ao campo, preferindo o subemprego urbano.

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