Folha de São Paulo, 20/09/08:
Fila para ter cidadania italiana tem 380 mil
Casos não são convocados há 1 ano e meio no Consulado Geral da Itália, em São Paulo; há quem já aguarde por mais de 10 anos
Segundo a cônsul Lucia Pattarino, impasse está no volume de pedidos e escassez de pessoal; órgão tem apenas 37 funcionários
JULIANA COISSI
EM SÃO PAULO
VERENA FORNETTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
A fila para descendentes de italianos interessados em obter reconhecimento da cidadania está parada em São Paulo. Há um ano e meio, nenhum novo caso é convocado. E já existem aproximadamente 380 mil pessoas com processos em análise -que chegaram desde 2003- nas mãos de poucos funcionários do Consulado Geral da Itália, em São Paulo.
A contradição entre a alta demanda e o baixo número de técnicos para avaliação faz com que a espera pela cidadania demore quatro, cinco anos. Mas há quem já aguarde pelo direito há mais de dez anos.
Todo brasileiro descendente de homem italiano (pai, avô etc.) ou que tenha nascido depois de 1948, se o ascendente é mulher italiana, pode requerer a cidadania. O direito permite à pessoa, por exemplo, morar legalmente na Europa.
Imigrantes
O Brasil e a Argentina são os países com mais casos de pessoas que tentam hoje obter cidadania italiana no mundo. Entre os brasileiros, a maior procura está em São Paulo e no Sul.
Segundo o consulado e a Embaixada da Itália no Brasil, existem 5 milhões de descendentes só na capital paulista e 9 milhões no Estado.
Eles integram um universo de 25 milhões de brasileiros descendentes de italianos que, a partir do final do século 19, deixaram seu país para viver no Brasil. Boa parte, na época, serviu para substituir a mão-de-obra escrava nas lavouras.
Os herdeiros desses mesmos italianos enfrentam hoje na União Européia um movimento antiimigração. Em julho, foi aprovada a Diretiva de Retorno, que prevê uma restrição maior aos imigrantes ilegais como detenção de até 18 meses e a deportação. A medida afeta 8 milhões de irregulares, a maioria latino-americanos.
O Consulado alega que isso não acontece com os que têm direito no Brasil. Prova disso, afirma, é que o governo italiano começou a organizar uma força-tarefa com a vinda de mais funcionários para analisar os pedidos de cidadania represados (leia texto abaixo).
Segundo a cônsul Lucia Pattarino, o impasse está no volume de pedidos e a escassez de pessoal. São 37 funcionários, do cônsul-geral ao motorista, responsáveis por dar assistência aos italianos, conceder passaportes e vistos, entre outros serviços, além de cuidar dos processos de cidadania.
“Abrir mais fichas criaria confusão. Preferimos terminar os processos em análise. Ocorre que a cada ficha que abrimos, descobrimos que são pedidos para um, cinco, dez, 15 pessoas, e o trabalho aumenta”, disse.
No site, desatualizado, só conseguem conferir seu número na fila as pessoas cujos processos chegaram até 2004. Não é o caso do empresário Tiago Mori, 27, que quer morar em Londres. Como outros na fila, ele pensa em optar por uma alternativa cada vez mais comum: brasileiros que vão “morar” na Itália, por alguns meses, para obter sua cidadania via “comuni” (cidades ou vilarejos) italianas (leia texto abaixo).
Para quem quer obter a cidadania italiana, a saga na volta às origens começa em descobrir exatamente onde o parente nasceu. Muitas das histórias contadas pelos avós não batem com a origem verdadeira ou o nome foi trocado.
Outra falha é que, em 90% das fichas abertas, falta algum documento. “Se chegar com os documentos corretos, não vejo por que em algumas semanas não finalizar o processo”, disse a adida consular Marina Rusca.
Há 136 mil pessoas que obtiveram a cidadania pelo consulado de São Paulo. Só neste ano, 5.900 já tiveram o direito, e outras 2.000, que iniciaram a ficha em São Paulo, finalizaram o processo na Itália. Em 2007, saíram da fila 8.123 pessoas e, no ano anterior, 6.636.
CIDADANIA ITALIANA
380 mil
é o número estimado de pessoas que aguardam reconhecimento da cidadania apenas no Consulado de SP
500 mil
é o número de brasileiros que esperam reconhecimento de sua cidadania
Quem tem direito de requerer cidadania italiana?
Quem é casado com cidadão italiano ou quem tem ascendência.
Neste caso, o interessado deve ser filho, neto, bisneto, e assim sucessivamente, de italiano homem que, ao chegar ao Brasil, não tenha renunciado sua cidadania italiana. Para descendentes de mulher italiana, vale o processo para quem nasceu a partir de 1º.jan.48
Quem quer entrar na fila
Leia atentamente o site do Consulado Geral da Itália em SP (www.conssanpaolo.esteri.it), onde está a ficha de requerimento. Ela deve ser preenchida e mandada apenas por correio. O consulado não recebe pedidos pessoalmente
Quem já está na fila
Mantenha seu endereço atualizado. Se você mudar o telefone, envie uma carta comunicando a mudança; providencie com antecedência a documentação de seus ascendentes; acompanhe pelo site qual número de seu processo. O site está desatualizado, mas, haverá renovação
Nem no site vejo meu nome na lista, diz empresário
EM SÃO PAULO
Depois de passar dois meses estudando na Inglaterra, em 2004, o empresário Tiago Mori, 27, decidiu requerer a cidadania italiana para voltar a morar na Europa.
Mas desde que encaminhou os documentos, no início de 2005, não recebeu uma ligação do consulado em São Paulo.
Mori pleiteia o direito de se tornar cidadão italiano por meio do seu tataravô Achilles Mori. Ninguém da família, no entanto, sabia a origem do patriarca. Mori decidiu buscar ajuda de um escritório especializado. Em um mês, descobriu que o bisavô veio de Minas Gerais e obteve o documento do tataravô.
A saga só começava. “Mandei os documentos, mas não tinha idéia que demorava tanto. Nem no site, quando tento pesquisar, encontro o meu nome na lista de espera”, disse.
O empresário, que já gastou R$ 8.000 com documentos, pensa em investir um total de R$ 20 mil para morar alguns meses na Itália e findar o processo.
A estilista Sílvia Pretti, 42, já se prepara para arrumar as malas rumo à Europa. “Personal stylist” (espécie de consultor de moda e estilo), Pretti possui clientes estrangeiros e sonha em criar uma loja na Europa.
Ela deu entrada no processo em 2006. Com documentos e custos de viagem, planeja gastar R$ 22 mil, um investimento que diz valer a pena.
“A fila aqui em São Paulo é de anos, não há a menor possibilidade de esperar. É capaz de meu neto só conseguir”, brincou. (JC)
Para evitar a longa espera, descendentes com dinheiro e tempo vão direto à Itália
EM SÃO PAULO
Quem não quer esperar a fila dos consulados pode buscar direto à fonte. Brasileiros descendentes de italianos, com dinheiro e tempo, têm morado alguns meses na Itália até obter o reconhecimento da cidadania em alguma das aproximadamente 8.500 “comuni” (cidades, vilarejos) italianas.
Só neste ano, o consulado em São Paulo concedeu em torno de 2.000 declarações para finalizar processos de brasileiros que viajaram até a Itália a fim de obter a cidadania. No ano passado, foram 3.115 casos.
O interessado deve conseguir residência fixa na Itália e precisa morar, em média, três meses. Há guardas da “comune” que checam se o indivíduo mora mesmo naquele endereço.
Existem também escritórios especializados que assumem todo o serviço para o cliente, como a Girello Associados. Eles cuidam desde a documentação original e tradução até passagem, moradia e alimentação no período que durar o processo de cidadania. Os custos chegam a R$ 20 mil, segundo a advogada Andrea Girello.
Foi o caminho escolhido pelo empresário Alvimar da Rocha Júnior, 29. Ele passou quatro anos procurando a certidão de nascimento do bisavô, Giovanni Zeneri.
Contratou o escritório. Em fevereiro, foi para a Itália e o processo saiu em junho. “Valeu a pena. Tenho negócios na Europa e precisava da cidadania. Muitos esperam oito anos e eu, quatro meses.” (JC)
Consulados terão força-tarefa para agilizar análise de pedidos
EM SÃO PAULO
O governo italiano iniciou uma espécie de força-tarefa para conseguir dar vazão aos processos de pedido de reconhecimento da cidadania, que estão represados em todo o Brasil.
Existem 500 mil brasileiros descendentes de italianos à espera do reconhecimento, segundo a Embaixada da Itália no Brasil. Segundo a cônsul Lucia Pattarino, de São Paulo, nove pessoas já passaram por provas e foram contratadas exclusivamente para atuar na análise de processos de cidadania.
“Nos próximos meses, receberemos mais funcionários, e haverá talvez dez vezes mais pessoas só para os casos de cidadania”, disse a cônsul.
O reforço nas equipes irá acontecer em todas os consulados, especialmente nos de são Paulo e nos da região Sul do país que concentram os pedidos, de acordo com a Embaixada da Itália no Brasil.
Deverão trabalhar na força-tarefa de digitadores a funcionários de altos cargo