Der Spiegel, 04/07/08:
A Alemanha tem um problema com crimes de ódio contra homossexuais?
Imigrantes de países como Turquia e Rússia, onde a homossexualidade é tabu, levaram a um aumento dos crimes contra os gays na Alemanha
Michael Scott Moore
Em Berlim
O rapper Bushido é um alemão meio tunisiano que é popular entre uma variedade surpreendente de adolescentes na Alemanha, de garotos turcos a neonazistas. Ele diz que odeia os nazistas – entre outras pessoas – e se apresentou em um festival ao ar livre no verão passado em Berlim, que foi rotulado pela revista adolescente que o patrocinava como sendo um “concerto contra a violência”.
Mas um grupo de manifestes pró-direitos dos gays apareceu com cartazes. Eles diziam que Bushido era o garoto propaganda errado para um festival de tolerância. Seus cartazes citavam as canções deles.
Uma dizia, por exemplo: “Vocês veados vão pra câmara de gás”.
Ou: “Berlim está ficando durona de novo / Porque a gente dá uma surra em todas as fadas”.
Bastian Finke, que dirige o Maneo, o grupo de direitos dos gays em Berlim, disse que o protesto contra Bushido não foi muito longe.
“Ele mostrou o dedo médio para nós”, ele disse. E o público vibrou.
A história parece capturar um tendência alemã estranha – aumentar a intolerância em uma embalagem de cultura pop falsamente tolerante, que Finke diz “trivializar a violência”. A Maneo possui uma linha telefônica para vítimas de crime de ódio contra homossexuais e divulgou recentemente os resultados de uma nova pesquisa, que sugere um aumento nos crimes homofóbicos na Alemanha.
A Maneo relata que 40,6% dos 17.500 homens que responderam à pesquisa online por toda a Alemanha disseram que sofreram crimes de ódio em 2007. Os crimes incluem tudo que é ilegal segundo a lei alemã, de insultos verbais e cusparada até agressão grave. Mas o número aumentou em comparação a 35,5% em 2006.
Em Berlim – uma das cidades mais tolerantes do mundo, pelo menos para os homens gays – os percentuais são maiores. Entre as 2.150 pessoas que responderam, 43% informaram crimes de ódio, em comparação a 39% em 2006.
Finke admite que a pesquisa “não é representativa” de toda a população gay alemã, e Alexander Zinn, chefe da Associação de Gays e Lésbicas em Berlim-Brandenburgo, não está alarmado com o aumento de 5%. Ele diz que o grupo que respondeu a respeito de 2006 “não era necessariamente” o mesmo grupo que respondeu em 2007, de forma que os números devem ser tratados com cautela.
“Mas está claro”, ele disse, “que este é um problema muito grande”.
Uma questão turca…
A violência contra os homens gays está aumentando aqui por anos, disse Zinn. “Especialmente entre os adolescentes, nós notamos que há mais homofobia, principalmente por causa das mudanças demográficas na Alemanha”, ele disse. “Nós temos uma crescente população imigrante de muitos países onde a homossexualidade é tabu.”
O grupo mais óbvio é o de Bushido – garotos muçulmanos criados na Alemanha, que se sentem marginalizados, que absorvem o hip-hop e que podem ter sido criados para odiar os homossexuais.
No ano passado, a Associação de Gays e Lésbicas de Alemanha realizou uma pesquisa financiada pelo governo federal que mostrou níveis elevados de homofobia entre os adolescentes turcos. Dois terços dos estudantes colegiais em Berlim descendentes de turcos, apontou a entrevista, tinha pontos de vista homofóbicos sobre gays e lésbicas. O estudo também encontrou um elo direto entre os níveis de integração e homofobia. Os adolescentes que eram mais profundamente religiosos ou se sentiam discriminados em suas próprias vidas tinham uma tendência a terem pontos de vista mais homofóbicos.
Após a divulgação do relatório no ano passado, Eren Ünsal, uma porta-voz da Associação dos Turcos Seculares da Alemanha, expressou sua preocupação com os resultados. “Nós demos início ao primeiro esforço para combater a homofobia em nossa comunidade”, ela disse à “Spiegel Online”. “Mas também é importante não colocarmos contra a parede pessoas que são contrárias aos homossexuais.” Ünsal disse que espera que um debate aberto dentro da comunidade contribua para uma lenta mudança na mentalidade. Mas ela também alertou contra fazer generalizações a respeito dos turcos, notando que, “nem todo turco é homofóbico”.
Nico Hartong, um músico e assistente social de Berlim que ajuda crianças a comporem e gravarem suas próprias canções rap, acredita que o problema envolve mais simples machismo do que o Islã.
“Eu acho que os garotos islâmicos (na Alemanha) têm um problema com virilidade”, ele disse. “E a homossexualidade não se encaixa nem um pouco nesta imagem.”
A Alemanha, é claro, tem brutamontes de origem alemã que não suportam homossexuais. Os mesmos neonazistas que atacam os imigrantes ficam felizes em agredir gays. Mas os alemães de mentalidade liberal sabem como lidar com os neonazistas – a extrema direita é um fato familiar da vida na Alemanha. O que é mais confuso é como lidar com imigrantes que são menos tolerantes que os alemães que querem aceitá-los.
“O problema é que nós temos padrões na Alemanha, nós temos leis contra os crimes de ódio aqui”, disse Finke. “Mas as leis nem sempre são seguidas. É claro que o racismo é ruim – nós também dizemos isso. Mas há dois pesos e duas medidas quando se trata de violência contra gays. E acho que os gays na Alemanha sentem esta discrepância mais e mais.
…e um russo, também
Os imigrantes de países muçulmanos obviamente não têm exclusividade em relação aos crimes de ódio na Alemanha. O outro grande lugar no mundo onde a homossexualidade é “tabu”, como colocou Zinn, é a Rússia. De fato, a pesquisa entre os adolescentes de Berlim apontou que metade dos russos pesquisados tinha pontos de vista homofóbicos.
Tumultos e prisões durante a parada do orgulho gay em Moscou se tornaram um evento certo da primavera desde 2006, quando os primeiros ativistas gays que tentaram uma manifestação pública, pós-Guerra Fria, “foram xingados e atacados por skinheads, cristãos ortodoxos e nacionalistas radicais”, segundo o “Washington Post”. O machismo russo, assim como a versão islâmica, vê a homossexualidade como algo estrangeiro. E as posturas podem ser perfeitamente predominantes na sociedade.
“Para a Rússia, os gays não são um desenvolvimento orgânico”, disse o dramaturgo Ilya Resnik ao jornal alemão “Die Zeit” no ano passado. Um ex-governador de Novgorod, Mikhail Prussak, concordou. “Um homem normal não pode simplesmente reagir calmamente diante desses homens”, ele disse ao jornal. “Isto precisa ser tratado e curado.”
O resultado, nas ruas alemãs, é um aumento da intolerância. Finke diz que evidências de sua linha de telefone mostram um problema com abuso russo. Um ativista turco chamado Bali Saygili, que dirige um grupo de aconselhamento em Berlim para imigrantes gays, concorda.
“Não são apenas insultos”, ele disse recentemente ao semanário esquerdista “Jungle World” de Berlim. “Já cuspiram em mim também. Uma mulher russa disse que sabia que a homossexualidade não era ilegal na Alemanha, mas que se dependesse dela, ela me colocaria contra uma parede e me daria um tiro.”
Saygili disse que este tipo de tratamento o deixou calejado. “Entretanto eu acho que as pessoas que não aceitam regras democráticas neste país também não deveriam ter direito à cidadania.”
Mas ninguém, nem mesmo Finke, acredita que os crimes de ódio contra homossexuais se tornaram um problema repentino na Alemanha no ano passado. A tendência está fermentando há algum tempo. Hartong diz que insultar “veados” é um tema antigo no hip-hop alemão, mas um novo “estilo radical” – com rappers como Bushido posando como gângsteres americanos – pegou fogo.
“Kool Savas (um rapper turco-alemão) escrevia canções como essas nos anos 90″, ele disse. “A diferença é que Bushido agora atinge muito mais pessoas. Ele é um fenômeno, realmente é. Ele é o rapper mais popular da história alemã.”
Tradução: George El Khouri Andolfato